Com este calor não se consegue dormir e quando não se dorme pensa-se, reflecte-se, e por vezes até se tomam decisões que de manhã não fazem sentido absolutamente nenhum e felizmente esta noite foi uma dessas em que tomei algumas decisões que de manhã me pareceram tão ridículas que atribuí a minha falta de clarividência ao calor que se fazia sentir.
Mas antes de tudo tive uma visão tão nítida que até me doeram as têmporas de estar a tentar fixar o olhar numa imagem irreal mas ainda assim credível. Imaginei-me a andar em cima duma linha branca e sempre a direito. Não era uma linha muito estreita nem muito larga, era apenas do tamanho suficiente para eu me sentir confortável dentro dos seus limites. De um lado e do outro dessa linha onde eu caminhava via imagens de eventos que marcaram a minha vida. O fim da escola, o fim da universidade, o meu primeiro emprego, o meu casamento, o nascimento dos meus filhos… enfim, como se fosse um daqueles anúncios a planos de poupança reforma mas com imagens da minha vida. Quase todas as imagens me fizeram sorrir e ao contrário do que eu esperava, pensei ontem que a minha vida tinha sido muito facilitada e sem contrariedades de maior durante muitos anos.
Depois de muito caminhar à minha frente e mesmo em cima da linha branca que percorria apareceu-me um triângulo. Era uma estrutura de metal com paredes espelhadas de tal forma que não se conseguia vislumbrar nada do seu interior. Mas eu não me queria desviar do caminho e a única forma seria mesmo entrar no triângulo. Talvez houvesse outra maneira de seguir em frente mas eu estava curiosa porque nunca me tinha aparecido uma coisa semelhante à frente. O triângulo num dos bicos tinha uma entrada e eu avancei sem sequer olhar para trás.
Dentro do triângulo vi três possibilidades. A mais fácil, por onde prosseguia a linha branca onde me encontrava, apresentava-se na forma de uma parede em vidro de tal forma transparente que cheguei a duvidar que houvesse mesmo ali uma barreira que me impedisse de continuar no mesmo sentido de onde tinha vindo. E teria sido tão fácil continuar em frente ignorando a triangularidade do local onde me encontrava mas nesse momento (e eu senti-o tão intensamente ontem) eu não pude ignorar que um triângulo tem três facetas e que a mais óbvia não era a que eu queria experimentar.
Restavam-me as outras duas vias, sabendo que nenhuma delas me levaria de volta à linha branca e direita que eu tinha percorrido durante toda a minha vida até então. Virei-me de costas para a parede em vidro que me convidava a avançar e nunca mais olhei para trás. Nem tenho pena de não ter continuado apesar dos riscos que corri e ainda corro por não me ter deixado andar na estabilidade representada por aquela linha branca e direita, não muito larga nem muito estreita.
Descartado que estava o caminho do passado ainda tinha duas opções, do lado direito a noite, do lado esquerdo o dia e se racionalmente o meu corpo me pedia para avançar pela esquerda, instintivamente eu soube que não podia deixar de ir pela direita. Era o caminho mais ousado, mais arriscado e mais complexo de todos os três e eu nem hesitei! Nunca pensei que um dia me lançasse de dentro de um triângulo em direcção à noite mais escura de que tenho memória e no entanto não precisei de muito para me atirar sem pensar em mais nada do que desbravar caminhos desconhecidos para mim.
Descobri-me aventureira numa linha torta e descolorada e nem sempre evidente. Atravessei desertos e enfrentei tempestades com uma calmaria surpreendente para quem apenas se tinha limitado a seguir uma linha branca e direita desenhada no chão a traços largos por outros que não eu. Mas adoro a vida que vivi desde então, embora me tenha guiado mais pelo instinto do que pela razão. Tropecei muitas vezes em pedras, rochas e até montanhas gigantescas que se ergueram do nada mesmo à frente do meu nariz.
Neste momento sinto-me como um animal domesticado que de repente resolve fugir depois de uma vida inteira de mordomias e subserviências. Não sei quem sou nem o que quero mas isso não me interessa muito neste momento. Não sei se há um objectivo último no final deste caminho errático ainda que para mim o objectivo esteja apenas em percorrê-lo com gosto. Há quem diga que não se pode viver assim. Mas eu sei que se pode porque é assim que eu vivo.