" /> À procura dum Marido: agosto 2006 Archives

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agosto 31, 2006

Semeando

Eu tento (pois nunca deixei de tentar nem nunca deixarei) ir semeando as sementes do meu sentimento em pequenos recantos nada óbvios para ninguém a não ser para mim. Mas às vezes parece que a semente cai em solo árido. Queria tanto vê-la crescer, resplandecente e forte e verdejante… mas por mais que faça, por mais tempo e cuidados que tenha, parece-me tarefa inútil…

Hoje ouvi dizer que quem semeia e não colhe nada deve mudar de poiso. Ir à procura de solos mais férteis, onde o sentimento possa crescer à sua vontade e ganhar raízes daquelas que nunca mais acabam e que são resistentes a todas as provações que o mais rigoroso Inverno lhes possa vir a infringir. Mas eu não queria mudar de poiso, porque gosto destes meus recantos escondidos… e não perco a esperança de um dia puder colher o que mais ninguém lá conseguiu plantar.

O que seria da vida sem emoção? O que seria de nós se o coração não pulsasse de forma diferente consoante a forma do rosto que se nos perfila à frente? E embalados pelo ritmo da emoção que em nós brota e se transforma em fluxo direccionado… e a partilha do sentimento aumenta as duas sementes que se encontram e se transformam em algo maior do que a soma das suas próprias individualidades.

Mas as minhas sementes não florescem… e eu continuo a minha travessia no deserto alimentando-me de ilusões que se vão desvanecendo à medida que eu avanço por esta vida fora. Infelizmente o tempo não pára e os sonhos de ontem não servem para os dias de amanhã…

agosto 28, 2006

Sobras e excessos

O que se faz quando se sente que se tem tanto para dar e ninguém por perto para receber? O que se deve fazer às sobras de sentimento que cultivamos por pessoas que a vida afasta de nós seja porque motivo for? Eu por vezes sinto-me nascente e fonte mas depois o que de mim escorre não tem rio nem mar onde desaguar…

Eu gosto de dar, gosto de me dar. As portas e janelas que se fecham para que nada de mim possa entrar… criam correntes circulares, turbilhões que crescem e se agigantam em mim sem terem por onde escoar. O sentimento não arejado é o mais perigoso de todos porque se volta contra nós. E tanto tempo o mantemos trancado que deixa de ser totalmente controlado. Rodopia e volteia e depois já não é igual ao que era antes e já nem sequer é coisa normal e saudável.

As sobras que se tornam excessos são como os abcessos que aparecem de vez em quando e aos quais de início nem prestamos atenção. Só quando infectam e incham e se tornam enormes bolas de pus verde e pulsante, quando não nos deixam comer, nem dormir nem tão pouco falar e muito menos pensar, só aí percebemos que as nascentes de águas puras e cristalinas que de nós brotaram contra nós se viraram porque não termos encontrado canais por onde pudessem fluir…

agosto 21, 2006

Estranha forma de vida

É estranha esta forma de vida agora a minha em que nunca sei bem o que cada dia me reserva e sinto sempre que acordo em cima de um muro muito estreito do qual seria muito fácil deixar-me cair. É um exercício de flexibilidade e exercício e ele há dias que não sei como me aguento aqui no alto deste muro de onde vejo tudo o que a vida tem para me dar.

E mais estranho ainda é a minha progressão por este muro estreito fora pois ele há dias em que me apetece voar, deixar tudo para trás e desaparecer bem para lá deste espaço que tanto me condiciona o espírito e até por vezes o corpo. Se tenho dias que percorro de asas nos pés outros há em que qualquer passo por mais pequeno que seja me custa terrivelmente e nesses dias em que devia seguir em frente é o corpo que me pede para voltar para trás.

Fico, vou ou voo… sabendo que qualquer opção que eu tome tem impacto na vida dos que de mim dependem. Tenho medo de me deixar ficar. E tenho medo de desatar a voar e de nunca mais parar. Eu acho que se um dia o fizer nunca mais vou olhar para trás. E ainda por cima sinto que estas amarras que aqui me fixam não se desatam aos bocadinhos. Tinha que ser tudo duma vez só. Um corte radical, um salto no escuro, um voo rumo ao desconhecido… que me fizesse esquecer o passado e começar tudo de novo noutro espaço e noutro tempo, criando uma realidade alternativa para mim já que esta que conheço não me satisfaz.

agosto 15, 2006

A cabeça da mulher

Porque é que é tão complicado perceber o que se passa na cabeça duma mulher? Se calhar é igual nos homens mas da minha limitadíssima experiência estou em crer que as mulheres complicam o que os homens simplificam e se calhar é por isso mesmo que eu aqui me confesso totalmente seduzida e eternamente apaixonada pelo infame Dr. House. Não em termos físicos entenda-se que eu tenho este meu fraquinho por morenas que há-de vir a ser a minha perdição um dia destes…

Mas enfim, continuando aqui na linha de pensamento vi mais um episódio da brilhante série que desta vez punha um casal de mulheres e uma médica perante um dilema ético que passo a descrever. Uma das mulheres estava a morrer e precisava de um fígado e a outra de imediato se prontificou a doar metade do seu. Até aqui estaria tudo bem se não fosse o facto da equipa médica se ter apercebido que a mulher moribunda estava a pensar largar a amante por estar farta dela. A médica passou mais de metade do episódio a pressionar o resto da equipa para que contassem a verdade à dadora até porque tirar metade dum fígado não é propriamente o mesmo do que ir ali dar sangue e se ela estava a arriscar a vida deveria saber das intenções da outra.

Claro que para o House, magnífico como sempre que não há elogios suficientes para a esperteza saloia deste homem, esse facto era medicamente irrelevante e como tal em nada iria contribuir para a sua felicidade uma vez que o seu único objectivo era salvar a vida da mulher doente nem que para isso tivesse que mentir, subornar ou quebrar umas poucas de regras de qualquer código ético que se preze.

No final como é óbvio lá decorre o transplante do fígado e eles salvam a mulher doente. Já na recuperação a médica vai falar com a dadora e esta diz-lhe, e note-se o que uma mulher é capaz de fazer quando se diz apaixonada, ela diz que sabia que a outra a ia deixar mas que por isso mesmo lhe quis doar o fígado porque assim ela não teria coragem de o fazer. Ao que a médica pergunta se ela se sentirá bem sabendo que a amante fica com ela por se sentir culpada ou grata pelo que ela fez e a mulher diz que sim, porque a ama e não a quer perder!

Mentes retorcidas é o que é… e não me isento a mim própria de sofrer desse mal porque eu bem sei os filmes que faço na minha própria cabecinha quando alguém me diz alguma coisa e eu entendo outra completamente diferente. Não sei porque somos assim, e se calhar não seremos todas assim, mas que a cabeça das mulheres tem muito que se lhe diga, lá isso tem! As coisas haviam de ser mais simplezinhas… e a gente não se devia dedicar tanto à procura de razões para subentendidos que pura e simplesmente não estão no palavreado original. Será insegurança? Será fraqueza? Será que não conseguimos admitir que não somos tão completas como nos queremos fazer parecer às vezes? Seja o que for… é uma grande chatice, lá isso é!

agosto 12, 2006

Os triângulos da vida

Com este calor não se consegue dormir e quando não se dorme pensa-se, reflecte-se, e por vezes até se tomam decisões que de manhã não fazem sentido absolutamente nenhum e felizmente esta noite foi uma dessas em que tomei algumas decisões que de manhã me pareceram tão ridículas que atribuí a minha falta de clarividência ao calor que se fazia sentir.

Mas antes de tudo tive uma visão tão nítida que até me doeram as têmporas de estar a tentar fixar o olhar numa imagem irreal mas ainda assim credível. Imaginei-me a andar em cima duma linha branca e sempre a direito. Não era uma linha muito estreita nem muito larga, era apenas do tamanho suficiente para eu me sentir confortável dentro dos seus limites. De um lado e do outro dessa linha onde eu caminhava via imagens de eventos que marcaram a minha vida. O fim da escola, o fim da universidade, o meu primeiro emprego, o meu casamento, o nascimento dos meus filhos… enfim, como se fosse um daqueles anúncios a planos de poupança reforma mas com imagens da minha vida. Quase todas as imagens me fizeram sorrir e ao contrário do que eu esperava, pensei ontem que a minha vida tinha sido muito facilitada e sem contrariedades de maior durante muitos anos.

Depois de muito caminhar à minha frente e mesmo em cima da linha branca que percorria apareceu-me um triângulo. Era uma estrutura de metal com paredes espelhadas de tal forma que não se conseguia vislumbrar nada do seu interior. Mas eu não me queria desviar do caminho e a única forma seria mesmo entrar no triângulo. Talvez houvesse outra maneira de seguir em frente mas eu estava curiosa porque nunca me tinha aparecido uma coisa semelhante à frente. O triângulo num dos bicos tinha uma entrada e eu avancei sem sequer olhar para trás.

Dentro do triângulo vi três possibilidades. A mais fácil, por onde prosseguia a linha branca onde me encontrava, apresentava-se na forma de uma parede em vidro de tal forma transparente que cheguei a duvidar que houvesse mesmo ali uma barreira que me impedisse de continuar no mesmo sentido de onde tinha vindo. E teria sido tão fácil continuar em frente ignorando a triangularidade do local onde me encontrava mas nesse momento (e eu senti-o tão intensamente ontem) eu não pude ignorar que um triângulo tem três facetas e que a mais óbvia não era a que eu queria experimentar.

Restavam-me as outras duas vias, sabendo que nenhuma delas me levaria de volta à linha branca e direita que eu tinha percorrido durante toda a minha vida até então. Virei-me de costas para a parede em vidro que me convidava a avançar e nunca mais olhei para trás. Nem tenho pena de não ter continuado apesar dos riscos que corri e ainda corro por não me ter deixado andar na estabilidade representada por aquela linha branca e direita, não muito larga nem muito estreita.

Descartado que estava o caminho do passado ainda tinha duas opções, do lado direito a noite, do lado esquerdo o dia e se racionalmente o meu corpo me pedia para avançar pela esquerda, instintivamente eu soube que não podia deixar de ir pela direita. Era o caminho mais ousado, mais arriscado e mais complexo de todos os três e eu nem hesitei! Nunca pensei que um dia me lançasse de dentro de um triângulo em direcção à noite mais escura de que tenho memória e no entanto não precisei de muito para me atirar sem pensar em mais nada do que desbravar caminhos desconhecidos para mim.

Descobri-me aventureira numa linha torta e descolorada e nem sempre evidente. Atravessei desertos e enfrentei tempestades com uma calmaria surpreendente para quem apenas se tinha limitado a seguir uma linha branca e direita desenhada no chão a traços largos por outros que não eu. Mas adoro a vida que vivi desde então, embora me tenha guiado mais pelo instinto do que pela razão. Tropecei muitas vezes em pedras, rochas e até montanhas gigantescas que se ergueram do nada mesmo à frente do meu nariz.

Neste momento sinto-me como um animal domesticado que de repente resolve fugir depois de uma vida inteira de mordomias e subserviências. Não sei quem sou nem o que quero mas isso não me interessa muito neste momento. Não sei se há um objectivo último no final deste caminho errático ainda que para mim o objectivo esteja apenas em percorrê-lo com gosto. Há quem diga que não se pode viver assim. Mas eu sei que se pode porque é assim que eu vivo.