Postais de verão
Querida filha, ontem achei a tua voz já tão crescida. Disseste-me que tomas conta da tua irmã sem eu sequer te perguntar. Fico a pensar se não fui eu que tanto te condicionei para seres a sua segunda mãe sem tu sequer saberes o quão pesado é esse fardo que coloquei nos teus ainda tão frágeis ombros. Tenho saudades do teu ar sério de menina a querer parecer mais adulta, dessa tua seriedade fingida que desaparece assim que te recordas que o teu sorriso é de criança ainda. E sei que um dia as nossas separações se tornarão definitivas e sei que nesse dia irei perder uma companheira de vida que andou sempre atrás de mim mais por devoção do que por obrigação. Diverte-te filha e não penses no futuro. Ele chegará mais depressa do que as duas gostaríamos.
Minha querida bebé, não sabes o quanto me dói saber-te princesa de fantasiosos reinos de areal sem fim sem que possa ser eu um dos súbditos que se ajoelham ao teu lado e para quem inventas as tarefas mais complicadas que eles cumprem sem hesitar só para verem o teu ar de real felicidade. Provavelmente nem notarás que há uma baixa de peso no meio da corte que te segue. Nem tu sabes ainda o que é a ansiedade do querer não superar nunca o puder. Sinto muito a tua falta em todas as divisões que marcaste como tuas. Instintivamente até me chego para um dos lados da cama para te deixar livre o lado que mais gostas e a tua “mamofada” intocável desde que lá dormiste pela última vez.
Às vezes esqueço-me que também sou mãe.