Do mal o menos!
Consegui finalmente destrinçar o que estava a atravancar a máquina de lavar a roupa. Depois de alguns momentos de angústia e de alguns parafusos tirados de repente puxei por um bocado de uma coisa preta que se dependurava lá por baixo e descobri uma meia que tapava o sítio para onde a água devia estar a ir mas não ia. O problema foi que atrás da meia veio uma enxurrada que me deixou o chão da cozinha completamente alagado. Valeu-me uma velha pá que me ajudou a empurrar a dita para dentro dum balde, e as coisas que a gente aprende com as criancinhas na praia, há que se lhes dar algum mérito!
Mas três baldes de água cheios e uma velha mulher suada, desgrenhada e toda molhada depois, felizmente foram suficientes para reduzir a lagoa a umas meras pocinhas sem ser preciso chamar os bombeiros que foi a primeira coisa que me ocorreu quando vi aquela coisa a jorrar água assim sem dar mostras nem sinal de querer abrandar.
Danos a registar há apenas um rato que ainda não percebi se está morto ou se apanhou um susto tamanho com a aproximação da água em jorro qual tsunami arrasador de insectos e roedores que se enfiou tão bem enfiado por baixo da palha que eu quase nem o vejo e nem me vou arriscar a tentar tirá-lo da gaiola que se ele ainda tá vivo ainda me ferra aqueles dentinhos afiados e eu para mazelas já me basta as de hoje. Pois que a combinação de água com sabão em chão de azulejo é fatal para quem se quer tentar equilibrar ao mesmo tempo que tem que se andar sempre a baixar para tentar apanhar a água em queda livre. Que foi isso mesmo que me aconteceu por umas quantas vezes que não me livrei de dar uma boas quedas e para além de desgrenhada ainda fiquei com umas boas nódoas negras no traseiro que amanhã para me sentar é que vão ser elas! Será que dá direito a pedir baixa, estes altos que agora tenho para aqui como se tivesse andado a bater com o dito cujo nos cantos dalguma mesa mas depois como é que eu explico aos chefes que isto foi de ter escorregado e caído umas poucas de vezes em cima da gaiola do rato? E às tantas até foi por isso que o desgraçado se finou mas também se foi desta melhor porque já me estava a dar demasiado trabalho e para além disso cheira demasiado mal que eu nem tinha noção que os ratos fossem animais tão pouco higiénicos! Ainda por cima venderam-mo como um animal domesticado (ou seria doméstico?) e eu pensei que isso queria dizer que lhe tinham ensinado os hábitos de higiene mais básicos, incluindo esse tão óbvio que é o de não urinar no chão.
Enfim, pelo menos a máquina não tá avariada que isso sim era um desespero total e completo que se a gente um dia se atrasa no ataque aos montes de roupa exponencialmente crescentes corremos o risco de um dia não conseguirmos dar vazão e depois só há duas hipóteses. Ou vai a roupa suja toda fora, o que não dá muito jeito considerando que ainda não chegámos aos saldos e o subsídio de férias já foi todo nem sei bem como nem em quê, ou voltamos a pôr a roupa nos armários como se não fosse nada e eu até aposto que os indigentes selvagens que cá vivem em casa nem dariam por nada se eu o fizesse. O problema era mais eu que tenho este nariz protuberante que para minha desgraça e desassossego não há odor nenhum que lhe escape e me faz sofrer a bom sofrer com tudo o que não sejam os mais finos e suaves aromas.
Como dizia a minha rica mãezinha que já se foi, eu não nasci para ser pobre e muito menos para andar de rabo para o ar a tentar estancar uma fuga de água furiosa duma máquina de lavar a roupa com ataques de mau feitio! Ainda por cima tenho a impressão que se me molharam os pés de tal forma que ainda sinto os ossos todos engelhados lá por dentro. Vou esticá-los ali ao sol para ver se consigo desfazer o efeito nefasto deste acidente doméstico que para mal dos meus pecados não há-de ser o primeiro nem o último!