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As borlas

Este é um assunto daqueles que normalmente nem se falam mas que é tanto mais notório quanto mais se aproxima a altura de férias e das despesas extra com as crianças e mais sabe-se lá o quê que os subsídios de férias são sempre demasiado curtos para o número de actividades que existem por esse mundo fora para entreter o pessoal que quer e gosta de ser entretido.

O pessoal anda todo um bocado cansado e mal disposto e sempre que se lhes pergunta o que se passa, para além dos disaires desportivos que disso já nem posso ouvir falar, saltam sempre as lamentações sobre a falta de dinheiro, a falta de tempo e a falta de motivação e falta sempre qualquer coisa e essa coisa que falta justifica o olhar de bezerro mal parido que se fixa em nós à espera que a gente tenha assim a solução para todos os seus problemas na ponta da língua.

Ora o que me espanta mais a mim é que o pessoal continua a arrastar-se como se amanhã não existisse mas assim que alguém num momento de cada vez mais raro entusiasmo, daqueles que aconteciam muitas vezes mas agora cada vez menos tipo um gajo saber que a sua mulher já pariu embora haja sempre aqueles mais cépticos que lhe esfriam os ânimos com as suposições de que a criança é muito mais parecida com o Zé Manel do talho do que com o suposto pai, num momento desses um gajo vai e propõe pagar seja o que for ao pessoal, toda a gente se esquece das agruras da vida, e da falta de tempo, de dinheiro e de motivação e rapidamente se prontificam a celebrar com o desgraçado seja o que for que ele queira ver celebrado. Claro que no final o gajo de entusiasmado passa rapidamente a desanimado porque se há coisa que este pessoal sabe fazer em grande é chular os outros, mas até pode ser que nos entretantos e no meio da folia alcoolicamente induzida o homem até se esqueça da grande parvoíce que fez e pelo menos e por momentos se sinta o gajo mais felizardo do mundo.

Muito gosta esta gente de celebrar eventos alheios, e então se a celebração tiver patrocínio então não há quem os arraste dali para fora. É que eu até já pensei se realmente este era um problema da raça humana, do género um instinto mutante qualquer que nos levasse a concordar com tudo o que nos ofereçam desde que seja o “venha a mim sem retorno”. Claro que depois há aqueles mais desconfiados, geralmente mulheres, que acham que o “venha a mim” tem sempre que ter “retorno” e nesse caso quando lhes oferecem alguma coisa começam logo a pensar o que é que o ofertante, pois que é normalmente um homem, espera em troca da “oferta”. As mulheres não são lá muito boas a aceitar “borlas”. Já os homens normalmente nem hesitam, mesmo que por trás das ditas “borlas” haja efectivamente um “retorno” qualquer por lá escondido que nesse aspecto os gajos vivem mais do imediato enquanto que elas já estão a pensar no que vem depois.

Será por causa desta dessincronização temporal que os homens e as mulheres se entendem tão mal? Eles pensam no que está a ocorrer no momento e se é à borla então tá-se mesmo muito bem. Elas pensam no que irá ocorrer depois e se é à borla então já não se tá assim lá muito bem. Enfim… eu é que já não percebo nada disto e no meio da confusão generalizada normalmente quem acaba sempre a sacar dos cartões sou eu. Pago tudo a todos e no fim nem nunca vejo “retorno” nenhum de nada. Nem sequer um ínfimo agradecimento, por muito mísera que seja a palavra “obrigada”!

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