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Quando a porca torce o rabo

E neste caso a porca sou mesmo eu e só é pena não ter rabo suficiente para torcer que felizmente eu estou quase tão enxuta hoje como há vinte anos atrás quando o Fernando botou os olhos pela primeira vez em mim. Pois ontem estávamos a ver um desses programas daqueles das realidades que são supostamente reais mas a gente não acredita nada que essas coisas aconteçam assim e se acontecerem não é cá de certezinha absoluta. No caso era uma cena passada na América, só podia mesmo ser que os americanos tem a mania de fazer tudo diferente e em maior, e então era um fulaninho qualquer que queria pedir a namorada em casamento mas queria fazê-lo de maneira a humilhá-la publicamente e de tal forma que não desse para a dita senhora rejeitá-lo sem se sentir a pior representante da sua espécie e até quiçá de todas as espécies existentes no planeta.

De tal forma era a insegurança deste homem que combinou lá com os senhores que produzem estes programas da treta que ia pedir a mulher em casamento num intervalo qualquer dum jogo importante daquele futebol que os americanos jogam com as mãos e vai daí era logo num daqueles jogos de estádio cheio com muitas e muitas mil pessoas, seriam cem mil?! Enfim, era qualquer coisa assim em muito grande e depois no intervalo a mulher nem queria ir para o meio do campo e eu se fosse a ela não tinha mesmo ido porque nós já sabíamos o que a esperava mas ela coitada não. Então lá foi um bocado contrariada e o homem lá se ajoelhou e abre a camisa e mostra uma t-shirt com os dizeres “Marry Me” o que para quem não sabe quer dizer “Casa comigo” e vai de lhe tentar enfiar o anel de noivado no dedo e nós vimos logo a cara de pânico da mulher que se pudesse tinha-se enfiado por um buraco adentro mas ali não havia esconderijo possível com aqueles jogadores gigantescos por todos os lados e o estádio cheio à cunha aos gritos de “Say yes!” que é como quem diz “Diz que sim!” quando se estava mesmo a ver que tudo o que ela queria era mesmo dizer que não e mandar o presumido do gajo à vida dele que pôr uma senhora numa situação daquelas sem apelo nem agravo nem escape possível é coisa que não se faz nem ao pior inimigo!

Mas o Dário vai de ficar comovido com a história e eu às vezes nem sei de onde lhe vem tanta sensibilidade que este homem às vezes nem parece homem de tão picuinhas que é nestas coisas dos sentimentos. Pois lá veio ele com a lágrima no canto do olho a dizer-me que já passaram uns meses e que se calhar e coiso e tal era bom eu e ele juntarmos os trapinhos quando eu tenho andado a esforçar-me tão activamente para evitar sequer pensar no assunto, quanto mais falar nele!

E é neste ponto que a porca, isto é eu, tem que dar o braço a torcer, já que rabo não tenho. Passados estes meses todos de desabafos e mais os outros todos antes em que andei a maldizer a minha vida e o canalha do Fernando que me trocou pela outra lambisgóia de má vida que desapareceu tão subitamente como apareceu e cá para mim isso só mostra que tem culpas no cartório, isto é, que houve dedo da flausina na morte do Fernando! E lá estou eu a divergir do assunto do rabo, ou do braço, torcido que me trás aqui toda retorcida hoje que está-se mesmo a ver que esta situação é daquelas do vai ou racha e eu não gosto nada de ter que ir ou rachar em situação alguma! Então e pondo os pontos nos iis que a conversa já vai longa, a vontade do Dário é mesmo casar-se comigo e eu que achava que era mesmo isso que eu queria e precisava, pois afinal não é! Assumo hoje e publicamente que afinal esta história de andar à procura de um Marido era só um entretém da minha parte para evitar pensar em tudo o resto que me atormenta nesta minha vida preenchidíssima e que na realidade a falta de marido não me faz assim lá muito falta, muito pelo contrário!

E agora que aqui torci o braço tenho que encontrar uma maneira de me livrar deste nevoeiro cerrado dentro do qual me encontro neste momento e arranjar uma forma também de dizer ao Dário que sendo ele um homem com H grande não é o homem certo para mim. E que na realidade eu não quero homem nenhum e muito menos quero um marido por mais homem que ele seja. Prezo cada vez mais a minha individualidade e gosto de fazer o que me dá na real gana quando quero e me apetece e posso sem ter que estar a depender ou a acertar agulhas com ninguém. Assim guardo as minhas agulhas para mim e com elas faço o que bem entender! Já não tenho idade para fazer o que esperam de mim. É isso e neste momento é tudo! E tenho dito!

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