O peixe e a gaivota
Os peixes saltam directamente para o bico das gaivotas que os esperam esfomeadas. Os peixes são muito estúpidos e eu não consigo perceber porque continuam a saltar para o bico das gaivotas que os devoram num ápice. Fico ali que tempos e os peixes estúpidos continuam a saltar para uma morte certa. E enquanto passeio à beira-rio para à frente e para trás, tenho alguém ao meu lado mas não é relevante, os peixes nunca deixam de saltar, aos magotes.
Eu sou uma gaivota disfarçada de peixe. Os peixes são estúpidos mas eu não sou. Sei muito bem o que devo ou não fazer, por onde hei-de ou não ir. Mas em certas situações limito-me a seguir o cardume. Fico desorientada com a força colectiva e deixo-me ir atrás dos outros. Mas atenção que eu não sou assim! Nessas alturas posso ser, ou parecer, apenas um peixe estúpido de olhos sempre abertos e vidrados. Ofuscado pela luz. Mas alto lá! Cheguei a querer saltar para o bico aberto duma gaivota expectante mas nesse segundo em que me lancei transformei-me na gaivota que internamente sou e a outra que me esperava apanhou um susto tal que desapareceu imediatamente de vista.
Não é fácil ser uma gaivota disfarçada de peixe. As outras gaivotas andam sempre à espreita, a ver se nos conseguem apanhar e comer. E nós sabemos que os outros peixes são estúpidos e eventualmente irão ser comidos. É um esforço mental muito grande querer ser peixe e gaivota ao mesmo tempo. É bom ser peixe quando queremos passar despercebidos. E ser gaivota quando é preciso voar para não sermos comidos.
Assim passo eu o meu tempo ocioso, a enumerar as vantagens que tenho em ser peixe e gaivota ao mesmo tempo. E as desvantagens também porque ser-se só peixe não é suficiente e ser-se só gaivota também não. É preciso saber manter os pés, patas, barbatanas bem assentes no chão. Mas sem nunca perder de vista o horizonte distante que só é atingível pelos que sabem voar.