Cores e dores
Depois de várias noites sem dormir as únicas cores que distingo são os amarelos esbranquiçados dos reflexos solares nas várias superfícies reflectoras por onde passo, demasiadas superfícies e demasiado brilhantes os reflexos. Depois de ficar assim meio zonza e cega com tanta luz intrometida é-me um bocado difícil nomear todas as outras cores que dançam à minha volta. Vejo tudo assim às pintinhas pretas e brancas e tentar focar-me num objecto que seja para lhe aperceber a cor dá-me assim uns apertões aqui por detrás da nuca e portanto mais vale fechar os olhos e desistir.
Poderia pensar que teria bebido ou comido alguma coisa estragada, mas infelizmente nem ando muito enjoada o que no caso até é mau porque noto que tenho andado a engordar. Até poderia dizer que é do ar mas não é. É mesmo das quantidades industriais de pão que tenho andado a ruminar tipo vaca. Mastiga e mastiga e mastiga que ao menos enquanto estou entretida a mastigar não penso em mais nada. Se calha por isso é que as vacas passam o tempo todo a mastigar. Se calha até são seres mais inteligentes do que se pensa, quem sabe! Elas é que sabem o que é bom, andar todo o dia nos pastos a apanhar solinho e a comer ervinha completamente alheias ao destino canalha que as espera ali ao virar da esquina no matadouro municipal e depois directas aqui para o talho do Zé Manel que depois as esquadreja e pendura onde calha que às vezes até parece mal ver assim expostas as partes do animal.
Hoje não vejo nada e só penso em sangue. Enquanto for só no sangue das vacas ainda não estamos muito mal, diria eu. O problema é se passa daí para outros tipos de sangue mas por acaso agora assim como quem não quer a coisa saltou-me a ideia para a sangria que é coisa que já não me passa pelo estreito há que tempos e agora uma bem fresquinha vinha mesmo a calhar. Acho que este fim de semana me vou enfrascar. Eu que sempre disse que não se volta atrás que sempre em frente é que é o caminho, agora apetece-me apanhar uma bebedeira e daquelas da pior espécie que é das a solo. Se é triste ver um homem beber sozinho, uma mulher então é o descalabro total e completo e eu nunca pensei chegar a este ponto. Mas hoje parece que me perdi algures nesse caminho que eu queria que fosse sempre em frente e muito direitinho. Acho que havia algures um desvio que não vi e segui em frente e vim dar assim a um descampado que por todos os lados para onde olho (mentalmente entenda-se que infelizmente hoje não consigo ver mesmo nadinha de nada) só vejo terra amarelada e seca e pó, muito pó. Agora é que estou meio ensarilhada porque sempre soube por onde ir e nunca hesitei antes de avançar. Até hoje.
Cega, cheia de dores na nuca, sentindo-me só e desorientada no meio dum descampado sem fim… quem diria que isto ia terminar assim! Com tanta gente no mundo tanta… e com tanto objectivo nobre tanto, e eu nada! Não quero estar com ninguém e não me quero dedicar a causa nenhuma! Perdi a vontade! É isso! Aproximo-me rapidamente do tal choque anafiláctico que previ aqui há uns tempos. Sinto o meu organismo a virar-se contra mim e as minhas celulazinhas todas à porrada umas com as outras. Se calhar por isso hoje só penso em sangue! Vá lá minhas lindinhas! Matem-se e esfolem-se todas umas às outras que ao menos pensar em vocês assim miniaturas de gente com uns bracitos e pernitas a dar e dar e uns olhitos esbugalhados e umas boquitas com dentitos afiados todas a morderem-se umas às outras cá dentro de mim dá-me vontade de rir!