Quando a realidade ultrapassa a ficção
Pois estou numa situação algo delicada porque tenho dum lado o melhor dos mundos, pelo menos o melhor que algum dia conheci, e do outro o pior dos mundos que é mesmo o pior deles todos e quem tem mais do que uma criança sabe do que falo e às vezes até basta uma para se saber do que eu falo! Eu e o Dário é uma experiência estupenda. Ele é um homem de sonho! Aliás é melhor do que qualquer um dos meus sonhozecos com príncipes encantados ou homens abastados. É que ele é bem para além disso, de felizmente ser abastado ou pelo menos o suficiente para se chegar à frente na hora de cumprir a missão dolorosa de pagar as nossas saídas… e o dinheiro que o homem tem gasto! Mas eu nem estou a contar nem nada porque ele é que sabe e ele é bancário portanto se paga é porque pode!
Quando saímos lá deixo as crianças em casa, e fica o Diogo encarregado de fazer cumprir algumas regras, ou pelo menos de evitar que a casa expluda ou se incendeie e o Dário até dá uns trocos ao rapaz que fica todo contente porque há alguns dez anos que me anda a pedir uma semanada para gastar em porcarias e até não é por isso que não lhe dou o dinheiro, é mais porque não o tenho e se o tivesse não era para ele estar a gastar em jornais e revistas da bola e sabe-se lá mais o quê que eu nestas coisas nem pergunto mas que sei que ele anda muito saído da casca com as meninas, lá isso anda!
O pior, o pior de tudo mesmo, é quando nos juntamos com as crianças! Felizmente o Dário tem uma mãe só para ele que cumpre escrupulosamente os seus deveres de avó extremosa e portanto são mais as vezes que os rapazes dele não vem das que as que vem. Mas às vezes lá tem que ser e o Dário acha saudável assim ter as crianças todas ao molho e acha que eles têm que se entender todos uns com os outros mesmo que não se gramem nem um bocadinho. Foi assim ontem à noite, eles apareceram lá em casa e a casa nem é assim muito grande, dois quartitos e um cubículo mais ou menos engendrado pelo Diogo para se livrar das gralhas das irmãs que juro que o rapaz dorme todo encolhido mas ele lá sabe da sua vida e depois uma salita que cada vez que alguém se levanta bate sempre num joelho ou num pé de alguém e até nalgum cotovelo em calhando que as miúdas têm a mania de se esparramar no chão que às vezes parece que são arraçadas de gatos!
A Sara e o Marcos desapareceram imediatamente que estes dois parece que são almas gémeas dalgum passado distante de repente reencontradas. O rapaz até é bem giro, assim magrito e lourito e meio espigadote e a Sara lá lhe acha alguma graça que quando ele chega toma logo conta da situação e leva-o pelo braço lá para os cantos que só ela conhece e eu não quero nem saber, nem sequer o que eles andarão a fazer nos ditos cantos mas a verdade é que hoje de manhã o quarto delas cheirava a queimado mas depois como já estava tudo muito atrasado a coisa passou-me e esqueci-me de lhe perguntar donde raio vinha aquele cheiro.
O Diogo entende-se muito bem com o Dário porque como qualquer homem que se preze este meu homem sabe de bola e lá se lança naqueles dialectos intraduzíveis sobre os passes, e as equipas e as faltas e os jogadores e os árbitros e os presidentes dos clubes e da liga e sei lá mais o quê mas o rapaz entusiasma-se e o Dário já prometeu que o leva a ver a bola e tudo e não vai ser um jogo qualquer, vai ser um daqueles derbis ou lá o que é que nesses dias nem se pode transitar na cidade que vem tudo ver a bola e largam os carros de qualquer maneira no meio da estrada e tudo tal é a pressa para chegarem ao estádio!
O problema maior, digamos que o mais ruidoso mesmo, são os dois mais pequenos, a Raquelinha e o Rodolfinho que não se entendem nadinha de nada mesmo. Aquilo é mesmo ódio e não há nada a fazer porque assim que o puto entra lá em casa a miúda fica toda encarnada, louca furiosa mesmo, e depois passam o tempo todo à chapada. Se um morde ou outro arranha. Se um empurra o outro pontapeia e assim sucessivamente até me apetecer pegar nos dois, um de cada lado, e pendurá-los no estendal pelas meias e de cabeça para baixo, de preferência estando a chover que é para ver se os ânimos se acalmam. E com sorte ainda se partia a corda de estender, ou se rompiam as meias das crianças e um, ou até os dois, haveriam mas era de ir parar lá abaixo e assim se resolveria esse assunto sem grande estardalhaço e sem conspurcar muito a casa.
Eu não tenho jeito nem apetência para isto, é o que é! Se algum dia o Dário quiser mesmo juntar os trapinhos vai ter que me arranjar uma auxiliar de mãe, ou pelo menos uma tipa que tenha mais paciência para aturar criancinhas do que eu porque os meus nervos nesta fase da minha vida já não dão para isto. Já não davam antes e eles eram só três, agora então com cinco, sinto que se aproximam rapidamente dum precipício esgotamental temperamental e emocional e estão mortinhos por se amandarem lá para baixo que estes meus nervos são uns grandessíssimos preguiçosos e de aço só se for aquela lasca que um dia me entrou pelo braço adentro quando o Diogo andava a correr atrás da Sara e eram pequeninos e tropeçaram na tábua de engomar que se fechou comigo e com o ferro de engomar lá dentro e nem sei como é que depois desse episódio e te ter ficado enlascada pela tábua ainda me deixei engravidar outra vez, mas a gente é assim mesmo. Primeiro fazemos as asneiras e depois pagamos por elas e estes meus nervos coitadinhos estão fartos de pagar e pagar e pagar!