Fazê-lo ou não fazê-lo
Hoje, mais precisamente esta madrugada, olhei a morte nos olhos. Senti-me tão mal mas tão mal que julguei que não passava dali. As crianças dormiam e eu sem força nem vontade já quase a deixar-me ir. Dei-me um par de estalos mental e passei o resto da noite a pensar na vida que foi tão madrasta para mim, logo eu que acho que merecia bem melhor do que o que tenho ou alguma vez tive.
Depois tinha ali uns comprimidinhos verdes e fiquei assim muito tempo a olhar para eles a pensar se havia ou não de tomá-los. E se os tomasse? Quem iria sentir a minha falta a não ser estes três pirralhos que seguramente seriam despachados para os avós paternos que os maternos já eram? E enfim, teria que deixar aqui a indicação para que o Diogo fosse urgentemente recrutado para qualquer força ou esquadrão especial que cada dia que passa está cada vez pior e mais indisciplinado!
Tirando umas poucas de queridas que me ligam de vez em quando, mas agora menos que antes que cada uma anda lá ocupada com a sua vidinha, os maridos, filhos, namorados, cães e gatos, a verdade é que eu viva ou morta não faria cá muita diferença! Até gostava de voltar depois como espectro para ver quem é que ia ao meu velório e ao meu funeral e quem é que ia ter coragem de dizer mal da mulher que eu sou, ou fui até à minha morte precoce e inesperada. Só por ficar aqui toda mordida porque iria ficar sem saber como é que as pessoas iam reagir à minha morte é que eu penso duas vezes se realmente vale a pena ou não fazê-lo.
É que tenho tentado pôr os óculos com as lentes cor-de-rosa, como me recomenda tantas vezes a Vavi, mas mesmo assim não vejo cor nenhuma. Só vejo cinzento à minha volta, tirando claro está os comprimidinhos verdes que estão mesmo aqui à minha frente. E se tomasse uns poucos, como seria? Seguramente as miúdas iam notar de manhã que a mãe não se levantava da cama. Depois o Diogo que tem a mania que já é adulto aparecia para tomar nota da ocorrência e tentar resolver a situação. Vendo a mãe sem dar acordo de si o rapaz era capaz de se apavorar que já se sabe como é que os jovens é mais garganta do que outra coisa qualquer e fogem perante a mínima contrariedade (lá está porque acho que a tropa vinha mesmo a calhar para este calão).
Decerto chamaria o Zé Manel do talho lá de baixo para vir dar uma olhada e ele de habituado que está a mirar cadáveres de bovinos, suínos e caprinos lá me miraria de ponta à outra (ai que até coro só de pensar naquelas mãos de manteiga a passarem-me pela pele, enfim também a verdade é que já nem sentiria nada). O homem admirado de me ver ali tão hirta (e quem sabe até fria), ligaria para o 112 e depois é que ia ser um ver se te havias aqui no prédio que esta gente para coscuvilhar está por aí e além disso já tudo me olha de lado por causa da morte recente do Fernando. Imagino as histórias a correr por essa vizinhança fora. Quiçá que tinha sido o homem ele mesmo a vir resgatar-me das garras da vida para me levar para o lado de lá e eu de indefesa que estava teria apanhado um susto tal que me tinha mesmo finado nas garras dele.
Mas não é que eu até acho que ia dar um bonito cadáver? Só tenho pena realmente de já não estar cá para me ver, assim género santinha enfiada no caixão, como se fosse uma daquelas imagens de cera que eles fazem e depois dizem que são relíquias sagradas ou lá o que é. Ó morte minha amiga, achas que eu teria melhor sorte do lado de lá do que do de cá? É que tanta gente interessante que já morreu (não contando o Fernando que esse mesmo morto continua a ser pouco ou nada interessante) podia até ser que me desse para encontrar algum espírito famoso, de algum príncipe ou rei ou até imperador que se arrebitasse à minha passagem e eu seria feliz na morte como nunca fui em vida…
E que raio de pensamentos mais lúgubres que eu ando a ter ultimamente! Eu bem que achava que a morte do Fernando ainda me ia dar a volta ao miolo e lá está, a coisa já começou a surtir efeito e eu já ando desreguladinha de todo. Como é que é possível que eu ache que um sítio húmido e nojento e cheio de teias de aranha e correntes de ar e espectros com um ar deslavado e desgraçado, para não dizer mesmo destroçado, é mais apelativo neste momento do que este sítio onde agora me encontro? Como é que acho que os espíritos dos mortos podem ser mais interessantes dos que os dos vivos? Eu que nem acreditava nada nestas coisas antes do Fernando esticar o pernil… Eu tenho é que ver se a Caju vai comigo a uma senhora que ela conhece que deita as cartas para ver se alguém me rogou alguma praga ou mau-olhado. Ai que já sinto as mãos a tremer… e um frio que me vem aqui por trás da nuca… eu bem dizia que o Fernando acabava comigo e não é que mesmo morto o homem não me dá descanso?!
Comments
Querida Maria Antonia,
Valoriza as pequenas coisas boas k te acontecem... Mesmo as mais insignificantes..., um cafe, uma tosta mista, um almoco...
um raio de Sol tb tem valor..., nao necessitas sempre da Bola de Fogo toda...
... apanhar muito Sol tb faz mal ...
E desvaloriza tudo o resto..
Bjs,
teu Antonio Maria
Posted by: Antonio Maria | fevereiro 17, 2006 07:07 PM
Oi.
Costumo vir ler o teu blog.
Não percebi se a ironia continua a ser constante numa escrita divertida ou se tem algo mais profundo.
E fiquei preocupada.
Olha, a vida é porreira. Deixa lá os comprimidos verdes.
Não é por nada, mas se os tomasses quem ficaria a escrever no teu lugar?
É que eu gosto mesmo de ler o que escreves. Diverte-me muito.
Posted by: escrevi | fevereiro 17, 2006 09:47 PM
minha querida
hj pela primeira vez li o teu blog
tu és tão boa
fika bem
D
Posted by: Domina | fevereiro 18, 2006 09:51 PM
Que diabo de ideias andam a passar pela cabeça da menina. É que nem sei se te deva prometer um par de tabefes se um abraço bem apertado junto com um beijo. Vê se tens juizo e para já levas um xicoração grande.
Posted by: carlos | fevereiro 20, 2006 09:44 AM
De facto, até a gata esteve de molho mas não foi por isso que a chamada caiu. De cada vez que me ligas, lixas-me o telefone, pá! Agora foi-se de vez e até aquele outro, que em tempos me emprestaste, nem pia. Qualquer dia devolvo-to.
Tem juízo e toma lá uma beijoca.
Posted by: Maria Rita | fevereiro 20, 2006 10:18 AM
Oh rapariga! Deixa lá os comprimidinhos verdes, que não te levam a lado nenhum. Se calhar ainda tinhas que levar com uma valente lavagem de estômago, o que não deve ser nada agradavel, e ficavas numa dieta líquida de dias... Para ti esta última parte talvez fosse boa mas, a mim, não me agradaria nada! E não vamos nada às senhoras que lêem as cartas. Eu tenho aqui umas, ainda do tempo que namorava e, se quiseres, até te posso mostrá-las. Quando quiseres sair para espairecer, já te disse, eu fico com os pestinhas, que já tenho saudades de pequenotes e a Raquelinha faz-me rir e sorrir... O que hoje parece muito mau, amanhã já não é tão mau assim. É o que digo a mim própria e, assim, vive-se um dia de cada vez. Uma beijoca grande e sabes onde moro... A Damaia de Cima é tão perto... ;-P
Posted by: Carla Judite (vulgo Caju) | fevereiro 20, 2006 09:38 PM
Ah, é verdade! A minha casa na Damaia ardeu, por isso estou como hóspede na casa de uma tia na Buraca. Aparece!
Posted by: Carla Judite (vulgo Caju) | fevereiro 20, 2006 09:39 PM
Querida B.J. ou A.M.
Como é a primeira vez, que venho visitar o teu blog, só ainda li este texto....que está demais!!!! Posso dizer que tens uma imaginação hiperactiva, mas não penses muito na morte, não vale a pena. Acredito que todos nós temos uma missão na nossa vida (ou seja na nossa presente vida, porque temos várias) e quando ela terminar, então terás o teu eterno descanso, até voltares ou não a uma nova vida. Queria dizer, também, que me identifico um pouco com essas duas personagens, acho que reprensentam um pouco as mulheres da nossa geração.
Beijinhos
PS- A partir de agora será um blog a fazer parte dos links do meu blog
Posted by: Rita A. | fevereiro 21, 2006 10:40 PM