" /> À procura dum Marido: janeiro 2006 Archives

Main | fevereiro 2006 »

janeiro 29, 2006

O mundo gira ao contrário

Este fim de semana tem sido uma coisa que acho que contado ninguém iria acreditar. Estamos nós muito bem a viver a nossa vidinha muito sossegadas que eu cá nunca fiz mal a ninguém e sempre fui a alma mais pacata que há e de repente desata tudo a correr para o lado contrário do que nós esperávamos e nós nem sequer podemos fazer nada senão esperar que passe. Em alternativa podíamos tentar voltar para trás também mas eu nunca acreditei em olhar para trás. Comigo foi sempre em frente que em frente é que é o caminho mas agora confesso que neste momento já nem sei bem!

Não bastava o Sporting ter ganho ao Benfica logo quando eu me tinha cruzado com o Nuno Gomes que é um amigo de família e já há muitos anos, foi à hora do almoço na sexta feira e ele que é um querido e eu sempre gostei dele apesar daquele ar de menino que nunca há-de chegar a ser homem, ele garantiu-me que iam ganhar e um dos golos seria dele e dedicado aqui à Mariani. Até me explicou a técnica e tudo, pé cruzado ou traçado ou lá o que é que eu infelizmente de futebol não percebo nada e depois qualquer coisa assim como um efeito inquinado ou enfeitiçado e a bola vai por cima de todos e só para quando bate lá bem no fundo da rede. Mas apesar de todos esses truques que ele e os outros lá sabem que são pagos para isso, o jogo correu-lhes mal coitados e logo agora que iam todos lançados… amanhã é que de certeza o Zézinho se vai fechar lá na sala das máquinas todo o dia e provavelmente nem de lá sai senão no final da semana.

E depois a gente já sabia que ia estar frio que andavam aí todos a avisar mas de repente estava eu muito bem a estender roupa e a ouvir a chuva a cair lá fora e depois já não ouvia nada e a chuva continuava a cair mas já não ia assim tão direitinha como isso que parecia que as gotas de repente tinham engordado mas estavam mais leves que demoravam mais tempo a chegar ao chão e andavam assim às voltas e eu assustei-me com aquilo e até chamei o meu Diogo que se desatou a rir comigo e a chamar-me de tosca porque aquilo era neve! E eu sei muito bem o que é neve porque já vi sim senhora que já fui passear à Serra da Estrela um ano destes antes das crianças nascerem mas agora assim de repente não associei e pus o rapaz de castigo que não tem nada que andar a gozar com a mãe dele que este vai pelo mau caminho a não ser que eu ainda vá a tempo de o inscrever na junta para ver se o mandam para a tropa que é o que ele precisa. É que neve aqui na cidade… não me lembro de ver e eu já cá ando há uns anitos largos apesar de não o parecer!

E depois o que me assustou mais do que tudo foi que de repente, hoje e sem aviso prévio, tive uma visão do meu Fernando! Até liguei logo à Caju e ela disse-me que tinha sido um flax! E eu que nem sabia o que isso era nem que se podia ter isso assim no meio da nossa lida diária quando andamos a limpar a banheira da porcaria imensa que três crianças lá deixaram que a gente nem sabe onde é que tanto lixo se acumula e se agarra. Um flax… quem diria que eu com esta idade e separada já há tantos meses ainda tinha destas coisas! Pois foi como se ele me aparecesse mesmo ali à frente, e nada como era agora, era o meu Fernando do início da nossa vida de casados. Nunca foi nenhum deus, mas até que era bem jeitoso. E não é que me deram os calores de estar ali a ver o homem assim à minha frente todo excitado a avançar para mim com aquele olhar que não enganava ninguém ou pelo menos não me enganava a mim até a outra me ter levado o olhar e o homem e me ter deixado assim à mercê destes flaxes danados que ainda agora estou a tremer só de pensar. Será que o homem voltou do além para me atazanar o corpo já que o espírito está mais dormente que acordado? Se isto me começa a acontecer muitas vezes nem sei como vai ser daqui para a frente. Ou arranjo um Homem de carne e osso depressa que me venha arrefecer estes calores interiores ou então entrego-me de vez ao fantasma do Fernando para que me leve daqui para o além onde pelo menos deve estar menos calor do que cá dentro e menos frio do que lá fora!

janeiro 25, 2006

Sonho africano

Ai céus com tanta conversa de viagens e de sonhos e de mortes e caldeirões pois não é que esta noite sonhei que estava numa selva em África e que de repente eu era a rainha duma tribo dessas que para lá há e que se estava a preparar uma festa enorme à volta dum caldeirão gigante de onde emanava um cheiro fortíssimo a carne de porco esturricada. E eu a ser apaparicada por tantas servas que nem as contava, só lhes via as mãos que me besuntavam a cara e o corpo, que me massajavam e me cantavam ao ouvido que eu era a rainha mais bela de todo o sempre.

Depois de me vestirem e me prepararem, pintalgada que fiquei na cara, nas mãos e nos braços, e não desfazendo eu até estava ali uma mulher de se querer e cair para o lado, e toda ornamentada com aqueles colares rupestres e tudo e até me puseram umas saias daquelas de pele mas muito fininhas com um toque muito suave que não é nada como estas coisas que a gente compra nos chineses que eles dizem que é pele mas depois começa tudo a descascar e passado umas semanas já só se vê o plástico que se aquilo é pele não sei que raio de animais andarão lá pela China mas não serão de todo os mesmos que andam por cá ou em África!

Estava uma noite soberba, com uma lua enorme e cor de laranja como eu nunca vi cá, mas em África a lua terá que ser forçosamente diferente porque a terra está mais quente portanto quanto mais não seja a gente lá deve ver tudo distorcido assim como quando vamos ali na planície alentejana no verão e depois vemos o calor a subir do chão e fica assim tudo às ondinhas que se a gente não tem cuidado até parece que estamos a flutuar e não a andar e depois à primeira pedra pumba! Vamos de nariz ao chão que os nossos sapatos não se compadecem com estas ilusões de óptica que nos deixam a pensar que estamos a ver tudo diferente do que na realidade é.

Mas como eu ia dizendo, estava um calor brutal apesar de ser de noite. Viam-se as estrelas todinhas, enfim, acho eu que estavam lá todas porque a bem dizer nunca me dei ao trabalho de as contar para saber se lá faltava alguma… mas acho que estavam lá todas porque eram assim aos montes. E eu estava linda de morrer, numa noite africana como não há memória, que na verdade até não há porque eu nunca estive em África nem sei porque hoje me deu para sonhar com isto assim que a gente às vezes tem cada sonho que contado ninguém acreditava.

Ouvia o tum-tum-tum dos tambores e uma música algo estranha a acompanhar o tamborilar (que depois de manhã percebi que tinha sido o Diogo que se tinha esquecido de desligar a aparelhagem e estive toda a noite a dormir ao som duns meninos que cantam umas músicas duma novela qualquer) e depois lá as gentes todas a dançar duma forma algo estranha também que parecia que andavam a pisar vidros tal eram os saltos e os rodopios! Aproximei-me do caldeirão gigante e eis senão quando olho lá para dentro e que vejo eu meu deus?! Pois era! Era mesmo o Fernando que lá estava a ser cozinhado e era mesmo a carne dele que deitava aquele cheiro a porco esturricado!

Acordei tão mal disposta… às tantas foi alguma coisa que me deu a volta ao estômago que o meu é dos mais delicados que há que qualquer coisa menos fresca ou mais condimentada dá-me logo a volta. E depois também a coisa de ter que ver o Fernando ali morto na funerária e ter que o lavar e vestir que os homens até faziam isso mas depois saia-me mais caro, e foi um bocado complicado porque ele estava assim já a modos que um bocado teso e não é nada evidente vestir uma coisa assim que parece uma estátua de porcelana e a gente até tem medo de lhe partir algum membro ou que lhe caia algum bocado.

Um mau bocado estou eu a atravessar que agora nem sei em que estado civil me encontro porque se estava divorciada de um homem que entretanto morreu, afinal agora que sou eu? Viúva não sou porque já não estávamos casados mas se ele morreu então também não me parece bem dizer que estou divorciada porque isso implicava que por mais desavergonhado que ele fosse havia um ex-marido por aí algures e agora já não há. Solteira é que era bom, porque assim como assim podia dizer que nunca me tinha casado, e que estas crianças que vivem comigo são meus sobrinhos ou até mesmo que os recolhi da rua porque bondosa como sou não consigo ver ninguém a sofrer à minha porta sem os convidar a entrar… Ai… as coisas deviam ser assim mais simples e estas confusões todas estão-me a fazer mal aos nervos e à cabeça!

janeiro 23, 2006

Abençoada seja a sua alma

Pois hoje o que me traz aqui é um motivo dos mais infelizes que poderia haver embora na realidade não me sinta assim tão triste e nem consigo explicar porquê que isto às vezes estas desgraças que nos deviam afectar assim mais, pois na realidade até nos aliviam… ai que eu nem devia estar a dizer isto não vá andar por aí alguma alma penada a passear-se nos fios condutores e a brincar com as luzinhas a piscar e depois ler-me isto e ainda me vem para aqui atormentar que eu preciso de sossego e descanso e sobretudo numa altura destas!

Pois nem sei bem como dizê-lo quanto mais escrevê-lo por isso talvez o mais fácil seja mesmo ir assim de chofre e tudo duma vez. O Fernando morreu! Pois foi isso, assim, está escrito e agora podem pensar que estou aqui a atormentar-me por causa do desavergonhado que ainda o é apesar de estar mortinho da silva. E está mesmo que eu própria fui verificar lá aos frigoríficos da morgue porque a outra felisberta felizmente ainda não lhe era nada e portanto eu ainda sirvo para alguma coisa quanto mais não seja para lhe identificar o cadáver. Pois ele estava com um aspecto um bocado estranho, assim meio azulado e inchado, mas enfim, considerando que levou com a morte em cima, até que não me pareceu assim tão mal e a bem dizer a verdade é que até estava com melhor aspecto do que da última vez que o vi assim tal qual como veio ao mundo.

Não se sabe muito bem do que morreu. Estava óptimo num segundo e no seguinte ficou-se por ali mesmo na tasca do tio Joaquim que os homens até pensavam que era alguma brincadeira e depois foram tentar levantá-lo e ele nada. Eu tenho cá para mim que o homem morreu envenenado… e ainda hei-de ir falar lá com o tenente Sousa na esquadra para ele investigar bem o presente e espiolhar mesmo o passado da senhora dona outra porque às tantas ele fez-lhe alguma transferência choruda e ela achou que era suficiente e vai daí e pumba, acabou com a espécie dele! Embora tenho a dizer que o meu Dioguinho é a cara chapada do pai em mais magro e só é pena o miúdo não estar ainda no seu pleno senão pegava nele e fazia-o passar pelo pai para pregar um valente susto a uma reles que lhe roubou a ele a vida e a mim o amor e note-se que eu hoje ainda estou a recuperar desse embate enorme e nem mesmo a morte do desgraçado não está a ser o suficiente para me sentir de certo modo desforrada.

Agora tenho que ir tratar dos pormenores que obviamente que a outra dita cuja se pirou e me deixou com o corpo do homem nas mãos (e isso é mais uma que me leva a desconfiar da culpa dela) que até parece que agora depois de morto toda a gente se esqueceu do que ele me fez e todos me tratam como se eu fosse a viúva extremosa que me devia estar aqui a desfazer em lágrimas quando eu ainda estou a considerar se respeito o luto ou não. E se o fizer, se me vestir de preto por causa deste safado que me deixou com uma mão à frente e outra atrás, é só por respeito aos filhos dele porque se não fossem as crianças, ai se não fossem as crianças, havia de tornar o funeral do Fernando num autêntico festival. Havia de gritar tantos impropérios e até de cuspir e atirar pedras para cima do caixão que era o que me apetecia ter feito a ele enquanto estava vivo e restringi-me sempre para não me rebaixar à condição dele e do atrelado que mo desviou do caminho!

janeiro 20, 2006

Encontro imediato com o candidato

Ontem tinha deixado as pestes com os avós e resolvi dar uma volta para ver se arejava que uma mulher não é de ferro e de vez em quando tem que espairecer nem que seja umas horitas que parecem sempre uns segundinhos tal é a velocidade estonteante com que passam por nós. Ao contrário doutras alturas, quando estamos com as crianças nas salas de espera dos consultórios médicos e os médicos ligam a dizer que não sabem quando irão chegar e nós somos para aí os quartos ou quintos na lista de espera, em que cada segundo a tentar sossegar (e segurar) uma criança irrequieta e teimosa custa tanto como se fosse um par de horas!

Mas dizia eu que ontem andava a passear ali à beira rio que até nem estava assim muito frio e vieram uns jovenzitos simpáticos com uns grandes sorrisos falarem dum senhor qualquer que ia aparecer para falar duma missão. E eu como não posso ficar indiferente a quem está numa missão porque sei bem o que é estar numa missão sem fim à vista e sem objectivo claro e bem definido que cada vez me parece que vejo tudo mais enublado, agradeci ao jovenzito e lá lhe disse que o acompanhava então ao que ele me enfia um convite e um postaleco na mão com os dizeres: “Espero por ti na praça da canção” o que convenhamos é uma coisa bonita de se ler seja em que circunstância for!

Pois chegamos a um grande ajuntamento ali à entrada do pavilhão e eu entrei até porque me disseram que ia haver muita animação e até artistas que se um homem tem uma missão seja ela qual for ao menos que providencie muita animação que é para a gente não desanimar nem desmotivar. Lá entrei e fiquei logo assim um poucochinho desanimada porque afinal aquilo até estava um bocado vazio e o pessoal que lá estava era tudo assim mais para a faixa dos 50 anos e como diz a Vavi e eu sempre concordei, a gente deve-se dar sempre com pessoas mais novas que é para nos enquadrarmos no espírito e nós próprias acharmos que temos 5 ou mesmo 10 anos menos do que na realidade temos!

Mas já que ali estava, e já que me tinham prometido animação pois lá me sentei ao que imediatamente um dos tais jovenzitos simpáticos me veio entregar 3 bandeiras e dizer-me que eu as devia acenar quando me dissessem. Depois apareceu um outro senhor mais entradote lá no palco e vai de dizer às pessoas para se levantarem e acenarem as bandeiras e não é que aquela quantidade absurda de pano ali a esvoaçar parecia assim de repente que estava ali muito mais gente do que a que na realidade estava! Enfim, não gostei dos abanões furiosos do grupo que estava por trás de mim que por várias vezes me despentearam aqui a cabeleira e além disso já me estava a incomodar toda aquela ventania gerada por tanta bandeira!

Depois apareceu uma mocita lourinha e simpática que veio dizer que devíamos votar naquele homem, no tal da missão que eu estava com curiosidade em saber qual seria e se seria tão improvável como a minha, porque ele gostava muito de mulheres e apoiava todas as mulheres ou eram todas as mulheres que o apoiavam a ele, que agora a bem dizer já não me lembro bem, mas aquilo soou-me bem! Finalmente lá apareceu então o dito senhor da missão, candidato a qualquer coisa que não percebi bem mas que devia ser importante tal era a gritaria dos que o apoiavam, e começou ele a dizer também que se candidatava pelas mulheres do nosso país e eu então fiquei rendida porque um homem que fala tanto nas mulheres e que diz que vai fazer tanto pelas mulheres só pode ser boa pessoa. E para além disso ele diz que nos quer fazer felizes a todos, mulheres primeiro, depois os jovens, depois os idosos e finalmente as crianças e parece-me que o homem não se esqueceu de nenhum grupo pelo menos dentro da espécie humana. Se calhar havia de ter mencionado os animais porque assim como assim ainda há por aí muito homem, e talvez até mulher, que queria fazer felizes os animaizinhos também.

Pelo que percebi o homem quer ganhar à segunda e se isso acontecer vai ser fantástico para todos nós. Não percebi muito bem porque é que ele não quer ganhar logo à primeira que seria o mais lógico mas se calhar quer deixar passar alguma mulher à frente primeiro e nesse caso acho muito bem que é assim que se distingue um verdadeiro cavalheiro de entre os que nos rodeiam. E já que o homem é assim tão poderoso que se ganhar tudo vai ser possível e vamos ser todos tão felizes achei que se calhar podia dar-lhe uma palavrinha sobre a minha missão porque em calhando ele até conheceria alguém jeitoso para me apresentar que nestas coisas nunca se sabe! Portanto quando o candidato nos veio cumprimentar perguntei-lhe logo se eu votasse nele, e caso ele ganhasse, e frisei bem que para mim era indiferente ser à primeira ou à segunda porque o importante é que nos sintamos todos vencedores, pois queria eu saber se ele me iria fazer feliz. Ao que o homem me respondeu que “claro que sim minha senhora!” e eu prontos, fiquei muito mais esperançada e vou votar nele porque quem sabe se à primeira ou à segunda é desta que encontro alguém que me desencalhe deste marasmo de vida em que me encontro!

janeiro 19, 2006

Eu sei que por vezes sou assim

Pois não tenho por hábito ser má língua mas hoje precisava tanto de me distrair que quando a Ildinha me chamou para ir lá dar uma espreitadela a uma coisa e eu sei que quando ela o faz é porque anda a cuscar nas informações privadas e confidenciais dos outros empregados pois não me contive e em vez de lhe dizer para ela se deixar dessas coisas que um dia destes ainda vai mas é parar ao olho da rua, e não é que ela às vezes não o mereça, mas enfim!

Acredite-se ou não o Zézinho das fotocópias tem lá na ficha de empregado os seguintes hobbies por esta ordem de preferência: “Desporto, Animais, Cinema”. Tão só e mais nada! E nas potencialidades pessoais: “estou digerido para o trabalho e forte empenho nas minhas tarefas diárias.” E depois claro que uma mulher deita as mãos à cabeça porque o Zézinho não é nenhum analfabeto mas é bem um representante do estado geral da nação da humanidade masculina. Que ele é fanático da bola, isso a gente já sabe que todas as semanas é sempre a mesma coisa. Sei logo se o Benfica ganhou ou perdeu consoante ele entre sorridente e me venha dar um beijinho ou se pelo contrário se enfie directamente na casa das máquinas fingindo que não viu ninguém à sua passagem tal era a força que fazia para manter sempre os olhos pregados nas biqueiras dos sapatos.

Que há homens que indexam a sua disposição às vitórias e derrotas dos seus clubes de eleição, isso é algo que me ultrapassa e que nunca entenderei. É quase o mesmo que deitar um dado ao ar e decidir se hoje irão estar bem dispostos ou carrancudos. E se para além do clube perder calha haver um jogador lesionado ou mesmo expulso, então aí parece que estamos perante o fim do mundo e exaltam-se tanto que por momentos ficamos a pensar se o jogador não seria alguém da família, um cunhado ou mesmo um irmão. É que dá-me a impressão que se fosse se calhar nem se preocupavam tanto!

E aqui para nós que foi o que eu disse à Ildinha, por muito que o Zézinho goste de animais e está à vontade para o fazer que ninguém o impede de ir recolhendo cães e gatos e galinhas e patos e que os leve para casa para os adoptar e alimentar, pois isso não é normalmente considerado um hobbie! Ou se é não é assim um hobbie que a gente debite para uma ficha de empregado. Então se toda a gente que tivesse cães e gatos se pusesse agora a dizer que um dos seus hobbies preferidos eram os seus animais de estimação, lá se iam todos aqueles quadradinhos tão jeitosos que aparecem sempre neste tipo de inquéritos aos nossos interesses. Em vez de aparecer por exemplo “Leitura”, “Viagens”, “Museus”, “Teatro”, “Espectáculos” ou o que normalmente lá aparece, seria então “Vacas”, “Porcos”, “Cães”, “Gatos”, “Patos”, “Galináceos” e por aí fora! Como se nós não tivéssemos deixado de ser um povo exclusivamente agrícola há muito tempo.

Vá lá para dar aqui um descanso ao Zézinho, safa-se o cinema que sempre é um hobbie das massas e não exclusivamente masculino nem exclusivamente simplório. Mas ainda bem que dentro das categorias de hobbies não há subcategorias que eu nem quero imaginar o tipo de filmes que este rapaz andará a ver. Mas nem lhe vou perguntar porque tenho quase a certeza que eu nunca passei os meus lindos olhos por nenhum dos títulos da sua preferência, sim que eu tenho nariz para estas coisas e ele diz-me que os gostos cinematográficos do Zézinho serão pouco ou nada recomendáveis. Vale mais deixá-lo lá estar bem digerido a empenhar-se nas suas tarefas diárias (e quem terá dito ao desgraçado que isto dito assim soava bem?!) que assim como assim também não é preciso muito para ir trocando os tinteiros ás máquinas e ele ao menos para isso tem jeito que nos deixa sempre tudo num brinquinho que nem dedadas nem nada ficam que ele limpa tudo com muito cuidadinho.

Mas que a pobreza de espírito abunda por estes lados… infelizmente lá isso abunda!

janeiro 18, 2006

Se eu sinto falta de sexo?!

Hoje veio-me a Vavi com esta conversa e a bem dizer a verdade é mesmo que na realidade não, não sinto lá muito falta de sexo! Tá bem que o meu Fernando também era um amante mais apressado do que apaixonado ou mesmo interessado, mas sinto mais falta do corpo quente dele aqui a dormir ao meu lado e a aquecer-me os pés do que aos saltos em cima do meu!

A verdade verdadinha e que só relato aqui porque já é quase meia-noite e as crianças estão a dormir, é mesmo que eu nestes assuntos de desejos e prazeres, como em todos os outros aliás, sempre fui uma mulher muito prática e autónoma. Portanto como não há melhor mão do que a minha própria e com um desajeitado de homem que às vezes até metia dó, pois cá me entendo quando, onde e como só eu sei fazer.

E mais ainda aqui declaro que nunca me neguei ao meu Fernando que também não foi por falta disso que ele me atraiçoou, o desgraçado! Podia não ser a oitava maravilha do mundo como amante na cama mas sou muito mulher para dar a volta à cabeça (e outras coisas mais…) de qualquer homem! Mas não é de todo por aí que me faz falta ter um Homem agora para mim.

O que eu quero é alguém que me satisfaça as minhas necessidades mais básicas… do género que me pague as compras de supermercado todas as semanas, e o cabeleireiro e a manicure e a esteticista e me ajude a guarnecer e manter o meu vestiário com tudo o que o compõe desde os acessórios, colares, pulseiras, brincos e anéis até aos sapatos pois claro que já aqui o disse que tenho uma adoração e fascínio por esses objectos que nos adornam e embelezam os pés (ou pelo menos deviam!)

Assim o Homem dos meus sonhos a bem dizer até deveria era ser impotente! Eu filhos já não quero mais que estes três já me arranjam sarilhos e encrencas mais do que suficientes. Um Homem que fosse carinhoso e extremoso mas sem me andar sempre a perseguir feito animal com cio, esse sim seria o meu príncipe perfeito neste momento. Passávamos por cima dessa chatice que é o sexo, sim que nós felizmente já não somos animais e não é por aí que um homem conquista uma mulher embora o contrário talvez seja verdade se me lembrar duma certa mulher de má vida para não dizer pior que me roubou o meu homem! Nesse aspecto tenho que dizer que acho sinceramente que nós mulheres somos muito mais inteligentes do que os homens porque os nossos objectivos são muito mais racionais do que os deles!

Quero um estatuto social com dinheiro a condizer e portanto não me rebaixo ao nível dos que andam aí a pedinchar (e em calhando ai valha-me deus até a pagar) por momentos fugazes que rapidamente se esquecem e nem sequer dão para aquecer que foi precisamente o que eu disse à Vavi que nunca entendi esta necessidade que ela tem de se entregar ao primeiro que lhe aparece à frente. Não ganha nada com essas experiências inconsequentes a não ser uns sustos quando não consegue encontrar o preservativo (terá o gajo levado-o posto?) ou pior ainda quando vem a descobrir que algum desses seus casos de uma só noite aparece com os pés para a cova com alguma doença dessas que há agora novas que são tantas e tão esquisitas que uma pessoa até tem medo de apertar a mão a um estranho por muito mais educada e delicada pareça a pessoa que nos a estende!

Falta de higiene e perigo de contaminação por algum agente virulento são portanto os meus argumentos neste momento para não me querer aproximar demasiado de quem eu não conheço bem. Se por isso acham e dizem por aí que eu sou arrogante e que tenho o nariz empinado, que por acaso até tenho mas é apenas uma questão de genética e não de feitio, então quem o diz e quem o acha pois que tenha paciência mas aqui a Mariani tem um estatuto a manter e um belo dum corpinho a defender! Se não há quem o queira… pois talvez um dia até considere ir para freira! E se houver quem me queira… pois que terá muito que penar para até mim chegar que eu não sou uma dessas oferecidas que é só estalar os dedos e andar!

janeiro 17, 2006

É azar atrás de azar

Pois como dizem por aí um mal nunca vem só e neste ano que nasceu torto, ou fui eu que torto o vi nascer por estar mais esparramada que direita, se eu chegar ao fim dele ainda viva já tenho que me considerar uma grande sortuda! Qual missão cumprida qual nada! Eu tenho é que tentar sobreviver nesta selva urbana que é esta cidade que deus me perdoe que eu pensava que estas coisas só aconteciam aos outros e era só em filmes em que é tudo a fingir e depois deles desligarem as máquinas volta tudo ao seu lugar!

Pois estávamos ali num cruzamento e eu no meu estado de nervos habitual por trazer o carro cheio de pestes embirrentas e rabugentas pois quando vi que era o verde avancei mas depois reparei que não estava ninguém a avançar senão eu e que até estava um carro cheio de polícias bem no meio do cruzamento e todos cá fora com carabinas nas mãos, ou lá o que eram aquelas armas assim mais para o comprido que eu nem sei que não percebo nada de armas de fogo, e de repente viram-se todos para o meu carro que ia desalmado ali pela avenida fora e os polícias devem ter pensado que aqui a Mariani e mais as crianças aos berros e aos saltos seríamos algum bando de criminosos e malfeitores a fugir de algum assalto e vai daí ouvi assim um estrondo: BUM!! E de repente ouço assim uma coisa a passar-me atrás da nuca, assim tzzziiiummmmm… e vai-se a ver e não é que um dos senhores guardas deve-se ter assustado tanto com o nosso aspecto (e na verdade quem não se assustaria) e vai daí e descarrega a sua arma bem em cima do meu carro!

Fiquei com dois buracos nas janelas e só não fiquei com um buraco na cabeça por sorte! Ainda se o balázio me tivesse passado à frente e não atrás… olha agora do que me lembrei! Que rica ideia que eu tive agora… mas onde arranjarei eu um agente da autoridade que me dê um tiro no nariz? Azar por azar até que podia ter sido hoje e assim o seguro pagava o arranjo! Fazia-se um dois em um, carro e nariz e ficávamos todos muito mais contentes! Enfim, ficar mesmo ficava só eu, que estava mesmo a precisar de um nariz novo e nem por isso de vidros novos para o carro mas a criançada agradece que já há que tempos que me andavam a dizer que lá de dentro cá para fora não se via nada o que pode ter a ver com o facto de já nem me lembrar quando foi que fui com o carro àquelas máquinas de lavar… a bem dizer acho que nunca fui! Acho que era mesmo o meu Fernando que tratava destes pormenores automobilísticos que eu nunca tive grande jeito nem cabeça para estas coisas que a gente não dá para tudo e se há homem para fazer o serviço, pois que o faça!

Pois não ganhei para o susto… ganhei sim dois buracos nos vidros do carro e nem sequer saí de lá com um arranhão no nariz! Assim não há Mariani que aguente e eu juro que me parece que neste declive descendente da vida em que agora me encontro tenho a impressão que já só paro no buraco do caixão!

janeiro 16, 2006

Acudam-me!

Ai que eu nem sei como chego hoje aqui que se soubessem em que estado estou que de tão enervada quase que nem vejo nada! Claro tudo por culpa dessas pestes que são estas crianças que tenho a meu cargo que se houvesse um deus, juro por deus que já se havia de ter apiedado de mim e já me havia de ter feito chegar uma ajuda seja ela de que forma fosse, monetária talvez fosse a mais rápida e eficaz que eu continuo sempre a acreditar e a jogar mas não há como ganhar!

Pois ontem como quem não quer a coisa o inútil do Diogo vai de se queixar que eu sou uma mãe desleixada e vai daí mete-me a mão à guedelha, que é certo que está a precisar de ser desbastada mas não há-de ser por mim e muito menos agora, mas saca-me uma coisa minúscula que eu adivinhei logo ser um daqueles seres nojentos e microscopicamente patudos que dão pelo nome de piolhos! Não é normal este anormal saber que os tem, até andar a catá-los e valha-me deus quem sabe até comê-los e não me dizer nada senão no meio duma discussão acalorada em que de repente se lembra que eu agora sou uma mãe descuidada!

Pois piolhos tinha ele às centenas, e tinham elas e até eu! Seres mais infectos que estes não há e ainda por cima minusculíssimos que já não me bastava achar que tinha que mudar a graduação das lentes agora acho que estes olhos que tão bem me serviam nunca mais se endireitam de tanto esforço que fiz para tentar focar a visão nestes pontinhos negros que não param quietos nas cabeças das crianças só para chatear os adultos que até parece que não tem mais do que fazer do que andar atrás deles com uns dedos que ainda por cima parecem patas de elefante a tentar apanhar ovos sem os partir! Pois que não, estes dedos assim redondinhos e escorregadios não nos servem lá muito nestas missões de precisão!

E depois deles faltava eu, ai… só de me lembrar! Claro que tive que chamar a Vavi e a Ani para me virem ajudar que ainda não inventaram um método para nos catarmos a nós próprios! A Vavi apareceu de lenço no cabelo todo preso e pejado de ganchos e disse-me logo que nem pensar se iria aproximar deste antro de nojice que era o estado em que se encontrava a minha bela e sedosa cabeleira loura. Valeu-me a querida da Ani que esta até para meter uma vez a mão na sanita à procura duma moeda que tinha saído das entranhas da Sarita, pois nem isso lhe meteu impressão que juro que esta mulher devia ter sido coveira em vez de engenheira! Com método e precisão lá me espalhou ela a porcaria da loção que se alguma vez isto é loção e não desinfectante e daqueles bem carregados de lixívia que até parece que me querem enganar, eu que tenho um faro apuradíssimo e podia bem ter sido perfumeira! E não falo daquelas que vendem que para isso qualquer uma serve, falo mesmo das que inventam os perfumes!

Pois para o meu faro sensibilíssimo esta coisa nojenta que é a loção anti-piolheira pois tenho a impressão que me afectou mais até do que a cabeleira! Agora para qualquer lado que me vire, até aqui sentada ao teclado que estas coisas de plástico não deviam cheirar a nada ou quando muito a plástico queimado como no outro dia a ficha derretida na tripla dos chineses, mas não, não me cheira minimamente a queimado mas a um cheiro tão nauseabundo que nem sei o que faça à minha vida ou ao meu nariz! Será por o ter tão pronunciado? Será que o tamanho da penca influencia a sensibilidade do faro? É que de repente voltei a ter aqueles pensamentos narigo-suicidas e estou vai não vai para pegar ali no martelo e dar-lhe uma marretada! Agora não para que mo arranjem de forma a que me assente melhorzito mas porque não quero cheirar mais nada! Este nariz… bem dizia o meu Fernando que ia ser o meu desassossego para o resto da minha vida que não sabe estar quieto ali no meio da cara porque de repente até acha que deve ter uma existência mais interessante e colorida que a minha! Pois que vai de se meter em tudo o que é conversa só porque chega sempre primeiro do que eu… e depois lá tenho que pedir desculpas por ter um apêndice mais intrometido do que eu! Enfim, às vezes dá jeito porque lá me dizia o nariz que havia qualquer coisa que não cheirava bem em relação ao Fernando que de repente me começou a feder a perfume barato e o desconfiado do nariz não me deixava sossegada por mais desculpas esfarrapadas que o homem me desse que eram as novas clientes e que de repente todas usavam o mesmo perfume e um dos mais rascas ainda por cima!

Não me aguento aqui mais pois não! Se de repente desaparecer do mapa pois foi porque a mão venceu e foi com o martelo direitinha ao nariz! Pumba pumba pumba! E acaba-se já a história e a missão e vai mas é tudo fora e à martelada!

janeiro 15, 2006

Vamos lá pôr os pontos nos iis!

Eu sei que por dentro sou uma Rainha e que mereço este mundo e o outro e os homens todos aos meus pés para que possa escolher de entre os mais ricos também o mais jeitoso que uma mulher que se preza precisa de uma companhia que lhe encha o olho e também o de todas as outras mulheres que tudo dariam para estarem de braço dado com a dita.

Sonho com esse dia em que radiante e esplendorosa fazendo jus ao meu nome e ao meu porte de definição real, aparecerei perante todos com o Homem mais belo, culto, inteligente, encantador e rico dependurado no meu braço e sequioso de obsequiar todos os meus desejos mesmo os mais insignificantes e obscuros!

Mas hélas… eu sei que tal coisa não existe a não ser na minha imaginação fervilhante e demasiado fértil. Homens assim não os há, ou se os há nunca se cruzarão com a minha esbelta, magnífica e fascinante pessoa. Sim porque convenhamos que é difícil projectar uma imagem de nós para lugares distantes e paradisíacos. Mesmo com estas novas tecnologias que há para aí, em que a gente agora se vê uns aos outros nos telefones e nos computadores e tudo o mais… mesmo assim não vejo como, uma vez que não tenho acesso aos números de telefone dos Homens mais Homens de que eu ouço falar e mesmo por mais que peça à fada madrinha para assim num sonho e como quem não quer a coisa que me assopre assim um número desses assim ao ouvido…ela até hoje nunca o fez e eu para esses Homens que por aí andam não passo de uma ilustre desconhecida!

É que eu era mulher, porque era mesmo, de ligar para um desses fascinantes e cativantes seres da estratosfera masculina do imaginário feminino e só com a minha voz e com a força da minha imagem, até aposto que os seduzia ali logo no momento e tanto que buscariam o globo inteiro à procura daquela mulher misteriosa de telefone na mão tal sapatinho de cristal encantado. É que estes homens que por aqui andam, que circulam à minha volta, esses pobres coitados nunca se aperceberão do portento de mulher que lhes passa ao lado! Pois não, eles não sabem nem sonham do que eu Mariani Real dos Santos sou capaz de fazer por um Homem que por mim se apaixone e a mim se entregue! Por isso e por enquanto os iis ficarão sem pontos e aqui a Mariani permanecerá desconsolada por saber que a vida que mereço me está a ser desviada para alguma flausina que seguramente não é um centésimo da Mulher que eu sou!

janeiro 14, 2006

Mulher à beira dum ataque de nervos

É verdade sim senhora que sinto aqui falta da voz da autoridade que era o meu Fernando antes de se lhe entrar aquela coisa em forma de lambisgóia pela mente a dentro e o deixar de tal forma apalermado que juro que se alguém hoje em dia lhe perguntar se estes filhos são dele até é capaz de dizer que não que já nem se lembra de os querer ou sequer de os fazer! Desavergonhado!

Estas crianças estão muito indisciplinadas e nem os professores na escola têm mão neles! E eu cá acho mal que os professores não possam exercer a disciplina rígida de outros tempos que umas reguadas nas mãos ou mesmo no traseiro nunca fizeram mal a ninguém. E como os professores limpam as mãos e as consciências destas matérias cabe-nos a nós pais, e no meu caso, a mim que parece que sou mãe solteira de três diabinhos à solta que choram, gritam, desarrumam e sujam a toda a hora e a todo o momento! Estou desejosa para que cresçam e desapareçam! Foram muito queridos pois, aí nos primeiros seis meses de vida até desatarem a gatinhar que pareciam aqueles bonecos de pilhas das lojas dos chineses que fazem uma barulheira doida e dão cabo dos nervos a qualquer pessoa mesmo às mais calmas e pacientes. É que estas pestes só sossegam quando estão a dormir e mesmo assim é de forma relativa porque a Raquelinha parece que tem tosses nocturnas praticamente desde o dia em que nasceu!

O Diogo está numa fase terrível porque acha que já é importante e adulto e vai de questionar tudo o que lhe digo! Já não cede sequer à chantagem e qualquer castigo que lhe dê é sempre recebido com um encolher de ombros e um sorriso trocista acompanhado do irritante reparo: “não há espiga!” Raio do rapaz, que se a tropa deixou de ser obrigatória eu acho mal! Este devia era ir para lá já e nem sequer ter direito de saída ao fim de semana e durante uns 2 ou 3 anos que era para compensar todos os fins de semana que se andou para aqui a arrastar entre a cama e o sofá, deixando atrás de si um rasto de roupa suja e lixo variado que nem dois ou três criados chegavam para limpar a porcaria que este rapaz origina!

E nem sequer vou começar aqui a falar da Sarinha porque não fora ela tão novinha e eu diria que deu nome à teimosia! Quando mete uma na cabeça não há quem lha tire nem arranque por mais ferros e ameaças e castigos e privações. Esta há-de sofrer muito na vida, ou então fazer sofrer caso apanhe algum desgraçado que se apaixone por ela e tente compreender (já para não falar de amar) o que nasceu torcido por natureza! Mas ela não perde pela demora que eu hei-de ter uns privados com os meus potenciais futuros genros que eles até podem deixar-se apanhar mas não irão sem serem avisados!

É que só de pensar que enquanto estes três me atravancarem o juízo e a vida eu não conseguirei dedicar-me à importante e derradeira missão que agora iniciei… fico logo num estado de nervos tamanho! É que ainda por cima quando finalmente me livrar destes empecilhos irei estar tão velha e acabada que ninguém me irá querer pegar… e isto é se eu conseguir lá chegar!

janeiro 13, 2006

Ainda há esperança!

Sim ouvidor meu querido, não te preocupes pois eu estou atenta! Mas neste caso refiro-me mesmo ao meu menino Dioguinho que é uma esperteza só! Pois ontem quando vínhamos no carro e eu insistentemente lhe pedia para que pusesse o cinto porque nunca se sabe quando nos calha um daqueles agentes à cata da multa ao virar da esquina e olhando-o bem nos olhos lhe disse que ou ele punha o cinto ou ficava sem semanada nos próximos dois anos, julgando eu que lhe estava a fazer uma enorme ameaça… que nada! O rapaz vira-se para mim com aquela esperteza saloia e diz-me com o ar mais calmo e tranquilo do mundo: “Ó mãe, tem calma… se apanhares uma multa eu fico sem semanada e prontos. Não há espiga!” Ai… este vê-se bem que é filho do pai, mas que já me está a sair melhor que a encomenda, lá isso está!

E voltando ao assunto dos homens, ou da falta que eles nos fazem, pois… é verdade sim senhora que sinto falta de ter um homem ao pé de mim. Só um homem sabe fazer uma mulher sentir-se mais mulher. Não há como eles para nos porem num pedestal que o meu Fernando ao início fazia-me sentir uma verdadeira deusa de tanto mimo e carinho que me dava, para não falar das roupas, e das flores que este homem era um sedutor nato e sabia como apelar ao mais feminino que há em mim. Punha-me ali fragilizada e caídinha de todo pelo seu ar másculo, decidido e firme. Raio de memória que me prega cada partida! Eu a querer lembrar-me só da sem vergonhice do safado e agora estou aqui num crescendo de saudades dum homem que já nem existe! Ai Mariani sai-me já desta fossa que o tempo não está para lamechices! Continuas assim e qualquer dia ainda vais parar ao Divorciadas Anónimas: “Olá, o meu nome é Mariani e estou sem Homem há um ano e três meses. Hoje foi mais um dia difícil em que pensei muito em entregar-me àquele estranho que me olhou daquela maneira tão intensa, mas consegui desviar o olhar e seguir em frente… mas não sei por quanto mais tempo irei aguentar…”

janeiro 11, 2006

Básicos, são todos básicos!

Tirando o ouvidor que me está a sair melhor que a encomenda, os homens que eu conheço são mesmo primários de básicos! Nem vou sequer falar do Fernando, esse energúmeno que me trocou por uma lambisgóia sem jeito nem trato nenhum! Ainda se ela fosse rica… mas não, nem sequer foi pela atracção ao vil metal que ela agarrou o animal! Que lhe faça bom proveito!

Mas enfim, não era sobre essa besta mor que nem sonha nem sabe o que deitou fora que me queria debruçar agora. Falo dos homens que me rodeiam e que de vez em quando me devolvem um olhar tão bovino que apetece pregar de imediato uma estalada para que voltem ao planeta dos seres inteligentes! Hoje fomos à farmácia à hora do almoço que a Raquelinha continua com uma tosse pavorosa e estava uma bicha que as pessoas até já se amontoavam todas cá fora e eu para não estar ali à espera e porque assim como assim ainda queria ir à papelaria pedir à Zefa que me deixasse deitar um olho às revistas do social que ela é uma querida e faz-me esse jeito quando não anda a tentar desencaminhar o Zé Manel das carnes, pois disse ao Zézinho das fotocópias para ficar ali a guardar lugar. Virei-me para ele e disse-lhe mesmo: “Tu ficas aqui à minha espera que vou ali mas já volto, está bem?” e ele com o ar bovino que de vez em quando vem à tona: “Tá!” E lá fui eu à minha vidinha descansada por saber que o Zézinho me fazia o favor de me guardar o lugar e ainda por cima cá fora que estava um frio que não se aguentava.

Nisto estando eu já imersa nas fotografias dos natais dos bebés reais (é impressão minha mas são todos mais gorduchos e mais estrábicos que os nossos?!), entra-me o Zézinho por ali adentro com o ar mais relaxado do mundo… claro que pressenti logo que ia haver chatice da grossa porque se há coisa que eu não suporto é um homem que não sabe guardar o lugar a uma senhora! “Então mas o que é que se passa Zézinho?” e ele, ai valha-me deus que ainda me dá uma coisa má só de pensar, e ele responde-me “Vinha perguntar se era mesmo para ficar ali fora à espera porque tá muita gente à frente”. Ai e eu tenho que ouvir estas coisas e trabalhar com estas pessoas! Estes homens não discorrem? Não pensam que para além de tentar agradar a uma senhora, e já nem estou a pedir tanto, ao menos que façam o que lhes é pedido? Ai que falta de pró-actividade! Aliás neste caso nem existe reactividade sequer, porque este homem sofre mesmo de ausência de matéria cerebral! E não reage a estímulos porque não tem sequer ponta por onde estimular!

Belo jantar!

Fomos a um indiano o que à partida me deixou logo assim descorçoada porque o raio do cheiro que se entranha normalmente na roupa, pois! Não gosto muito de tanta especiaria e óleos e gorduras que eles para lá usam, mas o rapaz já tinha reservado e o malandro até devia mas era ter um arranjinho qualquer com o dono que eu bem o vi cochichando com ele ao fim do jantar. Às tantas são da família, mas o Fanuco é tão branquinho e estes indianos são tão escurinhos… enfim, isso não quer dizer nada que a Lucinda do homem do talho teve uma criança tão escura que durante uns tempos achamos que o rapaz era filho do irmão da Zefa, a tal mulata do quarto direito. Mas com o tempo o rapaz lá esbranquiçou e a coisa amornou.

Pois mas o que interessa mesmo é que familiares ou não, lá nos serviram um repasto digno de um marajá! Foram muitas e variadas entradas, e mais aqueles pães sem fermento que ficam assim fininhos e baixinhos mas que marcha tudo na mesma que eu hoje nem almocei nem nada tal era a ânsia de guardar espaço para o jantar à borla. E no meio disto tudo eu juro que o rapaz que nos servia também devia estar com um copito a mais porque primeiro deitou água no meu copo de vinho e depois pegando no dito despejou-o no copo de água. E depois quando trouxe o vinho pois vai de o misturar com a água que já estava no copo correcto. Eu fiquei um bocado estupefacta, o Fanuco vermelho e sem saber onde se enfiar, e eu lá disse ao rapaz que assim não podia ser porque água com vinho no copo de água, ou vinho com água no copo de vinho, nem uma coisa nem outra portanto vai tudo para trás e traz-me mas é dois copos lavados! É que realmente! Se os copos ainda fossem iguais, vá que no lusco fusco do restaurante o rapaz não se apercebesse qual dos líquidos era água e qual era vinho… mas sendo um copo maior que outro, acho que deviam ter um bocadinho mais de deferência, especialmente tratando-se do serviço que é requerido a uma senhora fina como eu, que posso ser pobre mas sei muito bem comportar-me à mesa!

Depois ainda houve um momento mais constrangedor que o Fanuco coitado é esforçado mas não vai lá não! Pois que se me pôs a olhar para os vegetais que nos serviram de entrada e a murmurar que a Ildinha é que havia de gostar daquilo que ela não comia carne, só peixe e vegetais. E eu ali já a bufar e a dizer-lhe: “ó ó… mas francamente! Mas tu estás aqui com a Ildinha ou estás aqui comigo?! Se estás a pensar nela vou-me já embora!” que uma senhora não pode deixar passar estas oportunidades sem demarcar o valor da nossa companhia que era só o que mais me faltava agora o homem estar ali comigo a pensar na outra invejosa que por esta altura se deve estar a roer toda para saber como correu o nosso jantar.

O Fanuco bem tentou, ser cavalheiro e tudo o mais, mas não dá, não atinge coitado! Apesar de me ter vindo buscar e trazer a casa, de me ter pago o jantar, e de ter feito um esforço para me deixar passar sempre à frente, ele realmente não sabe como tratar uma mulher! É que para saírem asneiras mais ofensivas que elogiosas, então mais vale estar caladinho! Que foi o que ele fez para o final que já estava meio enfiadito e também ligeiramente bem bebido que eu às tantas tive que lhe esconder o copo de vinho porque assim como assim era ele que vinha a conduzir e para acidentes já me basta o raio do tornozelo que vá lá mesmo assim se portou menos mal e não me apoquentou durante o espaço dumas horas. Ou isso ou ficou anestesiado com a quantidade de álcool que ingeri pois que é verdade que ando a beber um bocadito mais que a minha conta… e tenho que ter um certo cuidado porque Mariani que se preze não se mete nos copos não senhora! Enfim, toca mas é a beber um cházinho e enfiar-me na caminha que estes desvios em dias de semana dão cabo de mim, mesmo sendo por uma boa causa, mas que se notam no dia seguinte lá isso notam!

janeiro 10, 2006

É, tenho uma grande penca!

Ai estou tão desconsolada… pois acabei de receber umas fotografias de um almoço de reis a que fui na semana passada e olha pois que assim de repente ver-me de lado com uma penca tão grande e aguçada… é que só me dá vontade de pegar num martelo e dar-lhe uma martelada! É que agora até me lembrei dum episódio duma série de cirurgiões plásticos que vi num desses canais novos que agora são tantos que a gente até lhes perde a conta, pois nesse episódio aparecia lá uma senhora que eles até pensavam que o marido andava a dar porrada nela e na realidade o homem tinha-lhe desfeito o nariz mas a pedido dela que o achava demasiado grande e mal amanhado. É que eu agora nem homem tenho para me dar uma marretada no nariz caso eu quisesse parti-lo um bocado para que mo arranjassem mas em versão XS. E eu partir o meu próprio nariz não estou bem a ver como porque se eu até para dar uma martelada num prego acerto sempre nos dedos que tenho um problema qualquer com o cálculo de distâncias na minha cabeça que os espaços parecem-me sempre todos iguais e depois vai-se a ver e não são!

Pois se eu tentasse dar-me uma martelada no nariz ainda acertava era num olho e ficava cegueta o que não me dá jeito nenhum e nesse caso já seria preciso mais que uma cirurgia plástica para me devolverem a minha bela figura (já para não falar da visão, que apesar de ser um bocadito desfocada ainda me faz muita falta nesta minha missão de procurar um Marido). Mas não há bela sem senão, e esta penca que carrego é o meu senão, a minha cruz e a minha sina! O que vale é que eu nunca me vejo de perfil senão tinha um desgosto todos os dias só de olhar para ela. Há quem diga que um nariz assim é sinal de forte personalidade e carácter mas olha, tenho cá para mim que quem disse isso é porque devia ter um apêndice nasal tão proeminente que deve ter servido de inspiração àquele senhor que escreveu a história do Cyrano de qualquer coisa que me falha agora a memória de desconsolada que estou com o tamanho do meu nariz!

Ai se eu um dia conseguir arranjar um Marido rico, a primeira coisa que faço é dar uma volta total e completa aqui ao apêndice nasal de tal forma que ninguém há-de dizer que aqui a Mariani um dia teve um nariz menos do que perfeito!

É sempre quando menos se espera

Esta é uma daquelas coisas que acontecem sempre quando não devem acontecer! Eu que toda a minha vida andei com saltos altos, que mesmo naqueles de agulha ninguém diria que não são uma extensão das minhas pernas firmes e esguias, pois tinha que ser logo hoje, e logo na véspera de ir jantar com o Fanuco, que um dos saltos se me enfiou num daqueles espaços que há entre as pedras dos passeios à portuguesa que juro que o homem que inventou este tipo de calçada não devia ter senhora em casa porque senão quem levava com um salto partido na testa ainda era ele!

O salto partido ainda é o menos porque aqui no bairro há de tudo e a gente remedeia sempre até porque o Sr. Justino já me conhece tão bem que qualquer dia nem me cobra nada… E lá vou alimentando a minha esperança e o ego do velhote desdentado com sorrisos do tamanho do mundo para ver se um dia ele deixa de me cobrar os arranjos da minha extensíssima colecção de sapatos… tudo de boa qualidade claro, que se os saltos se partem a culpa não é do calçado mas da porcaria de pavimentos que temos que há sítios que parecem verdadeiros campos minados!

Mas o problema é que fiquei com um tornozelo do tamanho duma batata e não é daquelas miúdas! Pois que a coisa se me começou a inchar, a ficar esverdeado e finalmente assentou num tom arroxeado que não combina nada com o vestido preto que eu tinha escolhido para levar ao jantar de amanhã! Agora estou coxa e desequilibrada e não é que o Fanuco vá fazer algum reparo porque o rapaz atrapalha-se todo nestas coisas, mas eu é que não queria agora entrar em restaurante nenhum sem que estivesse nas condições mínimas e indispensáveis para ser o centro das atenções e a inveja de todas as mulheres que para mim olhassem… agora serei sim o alvo da sua troça e dos seus olhares jocosos… eu mais o meu tornozelo batata roxa e o meu andar apatetado que cada vez que ponho o pé no chão é como se me estivessem a espetar dois pregos daqueles bem finos e pontiagudos um de cada lado… ai… bem, só me resta ir enfiar o tornozelo no gelo e rezar para que amanhã ainda consiga andar sem ajuda! Já para não falar em tentar enfiar o pé seja em que sapato fino for porque de repente está tão enorme que me parece até o pé duma das irmãs más da Cinderela… ai… ó fada madrinha se existes anda mas é cá deitar um olho aqui à tua afilhada e com um toque da tua varinha magica desfaz-me aqui esta bola negra que se apoderou do meu tornozelo! Bem e caso a fada madrinha hoje não esteja para aqui virada vou mas é esfregar isto com álcool e chegar-lhe uma pomada daquelas poderosas para ver se amanhã a coisa se endireita...

E não é que eu esteja à espera de grande resultado deste tal repasto, mas enfim… nunca se sabe se é já ali ao virar dalguma esquina que de repente damos de caras com o nosso príncipe encantado (pois que não é o Fanuco, por muita pena que eu tenha do rapaz), e não dá jeito nenhum o homem estar a tentar-nos ajudar a subir para o seu corcel e a gente ali a contorcer-se com dores no tornozelo!

janeiro 09, 2006

Eu não nasci para ser pobre!

No sábado à noite resolvemos ir dar uma volta para espairecer que isto uma mulher divorciada em fim de semana sem crianças tem que dar um ar da sua graça para variar um pouco as vistas e tentar-me abstrair do raio do cheiro da lixívia que se me entranhou nas mãos por ter andado a tarde toda a fazer limpezas. Eu e a Caju e a Vavi e a Ani discutimos que nos fartamos até decidirmos onde ir porque há sempre este problema nas saídas só de mulheres onde não há um cavalheiro generoso que se prontifique a pagar-nos os comes e bebes. E como cada uma de nós se tem que remediar com o pouco que ganha, acabamos sempre a noite umas um bocado chateadas com as outras porque todas querem levar a sua avante e depois nenhuma fica satisfeita com o sítio para onde vamos.

Fomos para o casino ouvir música ao vivo e bebericar um chá porque é como diz a Caju que é uma mulher prática assim como eu, por 2 euros e uns trocos ficamos ali toda a noite a ouvir música a e ver quem passa com a vantagem de ouvirmos o tilintar longínquo das moedas a caírem nas máquinas de jogos que quase que dá vontade de pedir a quem passa que nos vá mas é deixando cair as moedas nos nossos bolsos que sempre tinham destinos mais interessantes e úteis do que os cofres do casino. E eu por acaso até tenho um cofre lá em casa daqueles embutidos na parede por trás dum quadro duma menina deitada de costas que eu nunca lhe achei piada nenhuma assim com o rabo ao léu, mas o Fernando dizia que aquilo era arte e além disso nenhum ladrão se atreveria a mexer na menina assim semi nua para ver o que estava pela frente dela, ou seja, por trás do quadro. E nem sei agora para que ficou lá aquela porcaria, cofre vazio e menina sem vergonha a fazer-me lembrar um certo safado desavergonhado que me deixou o cofre às moscas por trás da menina destapada. Ainda se o homem se tivesse lembrado de lá deixar qualquer coisita dentro, mas não, aquilo foi uma limpeza tal a ganância que era de não me deixar nada em casa que eu pudesse usar para comprar comida para os filhos, sim que estas crianças precisam de se alimentar!

E assim estivemos à conversa ao som da Dora e eu nem sabia que a rapariga ainda cantava desde aqueles outros tempos em que esganiçada pedia ao homem que não fosse mau para ela, e olha que apesar de entradota tem cá um corpinho de fazer inveja a muitas raparigas novas e eu bem vi a Vavi a criticar-lhe as rugas à volta dos olhos mas a cobiçar-lhe as pernas musculadas que a Vavi pode ter um corpinho jeitoso mas aquilo treme por todo o lado. Por isso a mulher nem dançar vai, aquela é mesmo de se encostar num bar ou recostar numa cadeira e não mexer um milímetro que é para ninguém ver as carnes a abanar por todo o lado!

Pois eu e a Caju comentámos que não gostamos de ser pobres! Ninguém gosta de ser pobre claro, nem os próprios pobres, mas nós decerto fomos vítimas de alguma conspiração quando nascemos porque estamos claramente abaixo da nossa condição! A Caju que até acredita nessas coisas da reencarnação acha que deve ter havido um problema qualquer no karma cósmico da altura porque os espíritos devem-se elevar cada vez que renascem e os nossos já devem com toda a certeza ter passado por vidas de luxo e grandeza. Eu cá não acredito nada nessas coisas mas realmente era mais fácil achar que ao sorteador de almas lá lhe tinha dado uma coisa má precisamente na altura em que eu, isto é o meu espírito, lhe passava pelas mãos e vai dai espetou com a minha alma naquele corpo roliço e prestes a nascer na Maternidade da Baixa da Banheira em vez doutro corpinho qualquer prestes a nascer num berço de ouro! Assim sendo considero-me injustiçada porque devia ser eu a princesa herdeira dum trono qualquer real e não a dita cuja pencuda e estrábica que está lá no meu lugar! Ai eu em berço de ouro… aí sim poderia regalar-me à minha vontade e mandar fazer tudo o que quero ver feito à minha maneira. Serviçais a torto e a direito, costureiros e sapateiros privados, e em calhando quem sabe até chapeleiros! Comer e beber do bom e do melhor e ter os homens mais ricos do mundo a meus pés. Daqueles que tudo fariam sem olharem a meios (financeiros pois claro) para satisfazerem os meus mais rebuscados caprichos!

Pois se me apetecesse ver o pôr do sol duas vezes no mesmo dia… pois se me apetecesse ir a um jantar de gala no Mónaco com um vestido já usado pela princesa Grace (que digo de passagem que é o meu modelo e referência feminina mas atenção, só depois de ter desistido lá das trapalhadas dos filmes que aquilo foi só para enganar a populaça até conseguir caçar o príncipe dos seus sonhos)… pois se me apetecesse ir até Itália ao la Scala… ou ir jantar ao Ciel de Paris na Tour Montparnasse (e eu juro que quase sei a que cheiram e sabem as trufas apesar de tal iguaria nunca me ter passado pelo estreito…)… ou ir escolher jóias e diamantes ao Tiffany’s ali à Quinta Avenida em Nova Iorque… Sim porque eu posso ser pobre mas não sou burra e sei bem onde se encontram todas as coisas que eu sinto que mereço! Portanto príncipes, condes ou duques ou mesmo patos bravos desde que sejam endinheirados (sim que para falida já basto eu) estejam à vontade para aparecerem e me levarem daqui para lugares onde eu sinto que pertenço!

janeiro 07, 2006

Da aparência não abro mão!

Hoje passei ali pela Mimi para combinar com ela dar-me aqui um retoque ao cabelo. E não, não é para o pintar, é mesmo só retocar que o meu louro é natural mas de vez em quando precisa de ser realçado! Ela coitada também tem uma vida lixada porque o homem dela, que trabalha numa oficina e anda sempre enfarruscado que nem se percebe como uma mulher de pele tão delicada e toque tão refinado pode conviver com um fulano que de tão conspurcado nem se lhe percebe a cor dos olhos nem do cabelo nem de nada… enfim! O homem não ganha o suficiente para lhe dar uma vida minimamente estável e ela coitada bem se esfalfa ali no cabeleireiro e desdobra-se até em esteticista e manicure mas como aqui no bairro anda tudo muito remediado deixa-se sempre estes assuntos da aparência para último lugar e a Mimi lá se vai queixando que o negócio anda pelas ruas da amargura que ela nem teve ainda coragem de mandar vir as novas cores da estação e vai mudando os rótulos aos frascos para enganar as clientes que acham que estão a levar com as cores mais actuais mas a preço de saldo!

Eu cá felizmente tenho andado a cortar nalgumas coisas, mas não abro mão da minha aparência que posso estar divorciada e tomara que não mas um dia até desempregada mas ninguém há-de apontar o dedo aqui à Mariani e chamar-me desleixada! Isso só por cima do meu cadáver que na morte a gente não escolhe o que leva vestido para o caixão e estou mesmo a ver que se o Fernando pedisse à outra para o ajudar a vestir o meu corpo firme e hirto e já sem vida, pois ela só para se vingar de eu ter tido sempre esta aparência de senhora fina que ela nunca teve nem nunca terá por mais sessões de estética que faça (e mesmo se conseguir convencer o meu Fernando a pagar-lhe alguma plástica e se ela o fizer tomara que entre algum cisco no olho do cirurgião nesse dia e que lhe faça um golpe tão profundo na cara que lhe fure um olho e que fique cega para o resto da vida!)… pois como eu ia dizendo antes de me entusiasmar aqui a pensar na fulana desfigurada, ela havia de escolher um vestido tão pindérico para me pôr só para se vingar de eu ter a belíssima figura que ela nunca terá!

Um dia destes tenho que falar com as minhas filhas que ainda são tão novinhas coitadinhas mas que irão ter que me defender se algum dia essa fulana tentar sequer chegar perto do meu cadáver com alguma coisa de menor qualidade que mesmo mortinha e enterrada hei-de conseguir voltar em espírito nem que seja para lhe arrepanhar as meias de seda de marca que eu bem vejo pelas contas do meu Fernando que o nosso gerente de conta ainda me vai fazendo o jeito e me vai mostrando as contas do safado que é para quando o homem se começar a queixar eu vai de lhe mostrar que sei bem onde ele anda a gastar o dinheiro que devia ser para os filhos!

janeiro 05, 2006

Valha-nos os céus!

Eu bem tento aqui ir transmitindo que por enquanto ainda não considero que a minha missão seja uma missão impossível, embora esteja já a resvalar para uma missão de alto risco à medida que eu vejo o objectivo cada vez mais longínquo! É que eu sou mulher e sou loura mas não sou burra! Sou razoavelmente esperta e até percebi logo que o Fernando me andava a enganar muito antes de o ter apanhado em flagrante no acto e logo na nossa cama e no nosso quarto! Ai… este homem roubou-me anos de vida, essa é que é essa!

Mas hoje assim como quem não quer a coisa cheguei-me à beira do Zézinho que nos arranja as máquinas das fotocópias e vi lá o rapaz a bufar com qualquer coisa que estava a tentar engendrar. Estava tão concentrado o pobre coitado que nem me viu chegar e deu um pulo tão grande que bateu com a cabeça na porta da máquina que estava a arranjar e juro que quase que vi as estrelas a voarem à volta da cabecinha do rapaz… Lá o consolei e lhe perguntei o que estava ele a fazer e desfazendo-se em lágrimas me disse que tinha uma paixão assolapada pela Ilda, minha colega e vizinha de secretária, mas que não sabia bem como fazer para a conquistar porque ela era rapariga educada e ele… nem por isso! Tinha estado então a “estudar” um dicionário português-inglês para ver se ao menos lhe dizia alguma coisa em estrangeiro para que ela não ficasse a pensar que ele era completamente ignorante. E eu calada que nem um rato porque eu bem sei o que custa elevarmo-nos desse estatuto de ignorantes inveterados. Sim que eu estudei muito mas foi tudo às minhas custas… que a inteligência não cai das árvores como fruta madura em cima da narigueta lá do outro fulano que descobriu a gravidade (não a inventou como eu já ouvi para aí uns ignorantes a dizer que há gente que diz cada coisa!)

Mas o Zézinho tinha lá rabiscado nuns papéis umas frases que estava a treinar para se declarar à Ilda e eu lá me prontifiquei a ajudá-lo porque embora não tenha queda particular para as línguas, mas ajeito-me que isto a gente tem que se ir desenrascando que nunca se sabe onde este nosso país vai parar que tanto pode ser a Espanha como à Inglaterra ou a França (eu cá até preferia os espanhóis porque os membros da casa real sempre são mais bonitos e mais bem comportados ou pelo menos assim aparentam… e vestem-se melhor também, sempre têm bons costureiros e bom gosto!)

Mostrou-me então os elogios que tinha conjecturado: “you are as good as corn”… “your body is to wobble and to cry for”… “your eyes are like pigs in the sky”… “your mouth is so apeticious I can trincate it all”… e nesta já o meu estômago se revirava porque claramente o rapaz se fartou de procurar as palavras no dicionário e toca de inventar que nestas coisas a gente já sabe que é bem pior remediar!

Ai… e com tudo isto aumenta a minha descrença na raça humana em geral e na espécie dos homens em particular! Quanto mais evoluímos mais eles embrutecem! É… cheira-me que esta missão ainda vai ser abortada por falta de vida inteligente nos indígenas do planeta do sexo masculino!

Uma mulher ouve cada coisa!

Hoje de manhã passei lá pelo talho do Zé Manel para me abastecer de carne que não há quem pare o apetite e o crescimento destas crianças que tenho a meu cargo. O que me vale é que o homem do talho é simpático e faz-me sempre um desconto porque ele também sabe o que custa ganhar a vida e alimentar três crianças que de enfezadas não têm nada.

Mas hoje não era ele que lá estava, era a mulher, a Lucinda. Depois de nos cumprimentarmos vai logo de comentar: “Ó vizinha olhe que o seu Fernando esteve cá ontem com a nova mulher dele”, como se isso me interessasse para alguma coisa agora saber por onde anda o safado e mais o novo atrelado! Mas ela não satisfeita ainda insistiu: “Olhe que o homem está tão diferente! Nem parece o mesmo. Está mais magro, mais simpático e até parece mais novo!” E eu dava-lhe a simpatia e era já que se o Fernando me aparecesse agora aqui à frente levava com um presunto destes bem grandes e mal cheirosos nas fuças que havia de cheirar a fumado pró resto da vida inteira!

Pois devo ter embranquecido tanto que a mulher lá me disse: “ó vizinha mas não se apoquente que qualquer dia é a sua vez. Há sempre um chinelo para cada pé” e se eu não fosse uma pessoa simpática, sim que eu sempre fui a simpatia em pessoa para esta mulher, mas se não fosse dizia-lhe que era bom mas era ela ir ver por onde anda o chinelo dela calçado que o Zé Manel é um bom homem com um excelente olho e dedo para as carnes mas que se devia limitar às carnes dos bovinos, dos caprinos e dos suínos que eu bem o vejo de vez em quando a piscar o olho à Zefa do quarto direito e um dia até passei por lá e ouvi uns barulhos estranhos mas familiares e quando depois vim cá abaixo ao talho bem vi o Zé todo suado e corado e não era de ter andado a esquartejar nenhuma vaca!

Hei-de arranjar um Marido nem que seja para espetar com ele nas fuças da Lucinda, e do Fernando e do raio do atrelado que por esta hora se deve andar a rir de mim e se calhar até anda por aí a espalhar que ela foi a melhor coisa que podia ter acontecido na vida do meu homem que há mulheres que não fazem por prender os maridos. Ri-te, ri-te que não perdes pela demora, ó ladrazinha de meia tigela! É que quem ri por último ri melhor!

janeiro 04, 2006

Preciso de um homem!

E de um que seja electricista de preferência! Pois logo agora que estava aqui tão entretida no chat com as minhas amigas que eu posso ser velha mas ainda sei muito bem funcionar com estas novas tecnologias que a minha mãe que me deitou ao mundo desde cedo me ensinou que a cabeça era para pensar e não para andar a armar aos cucos em futilidades e inutilidades que as mulheres práticas vão sempre bem mais longe do que as outras!

Pois estava eu aqui numa brevíssima pausa que uma Mariani que se preze nunca desleixa os seus afazeres mas uma mulher tem sempre que fazer uma pausa para comentar com as amigas nem que seja o facto do Fanuco ter ficado lindo de morrer com os novos sapatinhos que eu mesma lhe escolhi hoje à hora do almoço, começa-me a cheirar a queimado mas não aquele queimado do arroz que se pega ao fundo do tacho era mais aquele queimado de quando o lume chega às pegas das panelas. E cheirava-me assim cada vez mais e eu a desconfiar que era do computador que ainda por cima nem seis meses tem e que se estivesse já avariado o atrasado do Luís da loja ali da esquina que mo vendeu ia ter que se haver com uma Mariani furiosa como ele nem nunca viu nem quererá ver algum dia. Mas não, não era o computador mas sim a tomada do calorífero que estava enfiada numa tripla da loja dos trezentos que já percebi que estas coisas não tem terra ou lá o que é que a Ani que é engenheira me esteve a explicar que não se podem pôr estas tomadas assim com os risquinhos prateados nessas triplas baratuchas porque depois queima tudo! E queimou mesmo! Fez assim ppfffttt e uma faísca que se soltou tão brilhante que até me assustei a pensar que era um espírito que de repente se soltava da tripla, quem sabe de algum chinês que para lá estava alojado na dita que eles agora são tantos que às tantas até os espíritos deles se enfiam nas triplas adentro…

Pois foi-se a tripla, foi-se o calorífero e foi-se tudo atrás! Apagou-se-me o computador e a luz e tudo o mais e a criançada começou para aqui aos gritos porque um estava a ver os morangos especial de início de ano, e outra estava a ver a dóremi e felizmente a mais pequena parou a asneira que estava a fazer que uma mulher não se pode sentar aqui à conversa nem três minutos sem esta mexedora me ir aos armários da cozinha que já me estava a entornar as especiarias todas no chão toda contente que ia fazer um cozinhado para dar ao Nenuco… ai…

Sem luz, sem calma e sem homem para me vir restabelecer a paz aqui no lar, há lá Mariani que aguente e que esteja aí para as curvas? Pois assim não há condições! Agora tenho frio, não tenho luz e tenho crianças a mais a gritar que se vão mudar para casa do pai. Pois que se mudem!! Quero lá eu saber! Olha que vão azucrinar a cachimónia da outra que se quis provar o que era bom também há-de experimentar o que é mau!

Ora muito bem!

Se ontem o dia correu mal hoje talvez tenha começado ligeiramente melhor. Encontrei o Paulo, o meu vizinho do quinto esquerdo, logo de manhã quando estava a sair de casa. Entre os encontrões e amassos às crianças para se encaixarem no carro o homem lá me disse que queria ir sair comigo no dia 20 de Janeiro porque é uma festa de inauguração de um bar do qual ele é sócio e parece que vai haver danças argentinas e tangos e essas coisas todas. Ai e eu que para dançar não tenho jeitinho nenhum que a Vavi já me tentou ensinar mas eu viro-me sempre para o lado errado e até ela teve que reconhecer que eu não sou lá grande coisa a deixar-me conduzir portanto também não vai ser por aí!

Mas voltando ao Paulo, é que para além do facto do homem ter talvez um bocado de experiência a mais que eu bem noto as variações de perfume no elevador consoante as meninas que por lá passam e olha que eu tenho faro para perfumes e até sei bem distinguir os caros dos baratos e devo dizer que a vida amorosa do meu vizinho deve estar a entrar em declínio à medida que as intensidades aromático-enjoativas vão aumentando que há mulheres que ainda não perceberam o que é a subtileza de um aroma que se insinua no ar sem se perceber de onde vem… mas como eu ia dizendo, eu e mais esta minha mania de divagar, o meu vizinho usa sapatos em bico! Daqueles que parece mesmo um bico dum pato assim virado para cima e se eu embirro com sapatos e desses então nem vê-los! Eu palavra de honra que não sei de onde me vem esta mania de olhar para estes apêndices que mal ou bem todos trazemos e que me fazem logo ficar de pé atrás caso não goste dos ditos! Ainda no outro dia vinha a entrar no escritório e até me dirigi ao Fanuco (sim é mesmo assim que ele se chama coitado que não tem culpa nenhuma de ter nome de refugo) para o gabar porque em tantos anos de labuta comum acho que nunca o tinha visto de gravata e vai daí o homem tinha uns sapatos que nem sei bem onde ele os terá ido desencantar que juro que os sapatos devem ter bem mais anos do que o próprio Fanuco! “Ai ó Fanuquinho por amor de deus homem esses sapatos… é que estraga logo a fotografia toda!” disse-lhe eu e ele lá ficou tão tristinho que até me comprometi a ir com ele ali ao centro à hora do almoço para ver se desencantamos um par mais actual e em conta que os homens também se medem pelo que escolhem para adornar os pés.

Ele ficou-me tão agradecido que até me convidou para jantar e eu que não tinha nada em vista de repente tenho um jantar marcado com o Fanuco para a semana e uma saída com o Paulo na semana seguinte! O problema com o Fanuco é que apesar de ser um homem solteiro e até relativamente bem parecido eu já o conheço há tantos anos que parece que o homem é quase meu irmão. As minhas colegas dizem-me que eu e ele enfim… até que podíamos tentar mas o homem é mais novo do que eu e eu bem lhes digo que lá por estar divorciada agora não desato a sentir-me atraída por todos os homens que aparecem à minha frente! É que só de pensar em mim e no Fanuco numa situação menos apropriada, é que dá-me vontade de rir! Enfim, como diz a Vavi não posso armar-me em esquisita e tenho que agarrar estas poucas oportunidades que a vida me vai atirando feito parcas migalhas… embora sinta no meu íntimo que nenhum destes dois candidatos passará algum dia ao estatuto de Marido!

Lá agora!

Ontem à noite tive um pequeno privado com o meu Diogo que o rapaz de vez em quando sai-se com cada pergunta! Vira-se para mim com aquele arzinho de puto mal amanhado que acha que já é o homem da casa e aqui vai disto: “Ó Mãe tu já fizeste sexo?” Ao que eu depois de disfarçar o pequeno silvo que normalmente acompanha a falta de ar induzida pelo sobressalto causado pelo assunto lá lhe disse com uma voz firme e decidida: “Ó filho mas então eu não te expliquei há que tempos como é que se fazem os bebés?”… “Ahhh! É a mesma coisa??” Ai… mas porque é que eu acho que esta febre dos morangos com chantilly não está a ajudar em nada ao melhoramento da educação sexual dos jovens deste país…

Lá lhe expliquei tudinho de novo com a ligeira diferença que dos seis anos para agora o rapaz já me quer experimentar e já tem sonhos e isso tudo portanto lá lhe disse que a parte mecânica não é assim tão mecânica como isso que é preciso excitação (ai e os olhinhos arregalados… ai que este rapaz ainda me vai parar aos maus caminhos!) É que ainda por cima este tipo de conversas ele devia ter com o pai se o safado se lembrasse de vez em quando que tem filhos. Mas não, deve andar lá todo entretido no truca-truca com a lambisgóia que juro que ele até deve andar a tomar esses comprimidinhos azuis que há agora para andar com ele sempre em pé. Como é que eu agora explico ao rapaz que ele é obrigado à fidelidade em quem enfia o dito cujo se o próprio pai é o mau exemplo que se vê??

Esses senhores cientistas que andam sempre para aí a inventar coisas inúteis bem que podiam arranjar um veneno que se entranhasse nos homens assim que espetam a aliança no dedo para que não conseguissem levantá-lo a não ser com a legítima! Um veneno tão possante que lhes desse uma dor tão lancinante nas partes intimas de cada vez que têm pensamentos impróprios com outra mulher que não a deles de tal forma que jurassem a si mesmos que nunca mais tornariam a olhar para nenhum lado senão em frente! Ai tomara que o meu Dioguinho não saia ao pai que este menino sempre foi um anjinho em pessoa. Se eu descubro que ele anda para aí a enganar alguma rapariga ai leva nas fuças leva! E paga o filho pelo mal que o pai fez!

janeiro 03, 2006

Que desconsolo!

Pois hoje que já vinha meio murcha do almoço pois era logo hoje que o chefe tinha que me fazer um reparo. Logo hoje que eu já achava que esta minha missão começava a cheirar a condenada. Abeira-se de mim o chefe, uma simpatia em pessoa, e vai de dizer: “ó Mariani, você sabe que não é meu costume apontar-lhe nada que você transborda de profissionalismo, mas olhe, hoje está com umas olheiras que se notam à distância!” Ai o que o homem me foi dizer! Pois que desatei ali num pranto que ele até ficou aflito coitado! Mas não lhe podia dizer que tinha estado à conversa com o Manel da Caju pela noite fora não era? Pois lá lhe disse entre soluços que a Raquelinha estava muito constipada que não há xarope de cenoura por mais concentrado e açucarado que seja que lhe clareie aquela tosse horrorosa que não me deixa pregar olho nem só um bocadinho!

Já estava o homem de olhos arregalados e eu por ali fora continuei a dizer que ainda por cima tinha metido na cabeça que era este ano que ia encontrar um Marido e que era condição indispensável eu estar pelo menos com uma cara apresentável já que o resto do corpo… enfim! Lá me estendeu um lencinho e lá me levou a tomar um café para relaxar como se a quantidade enorme de cafés que este homem emborca por dia relaxassem coisíssima alguma! E deixando para trás a Ilda verde de inveja que esta pela-se por chamar as atenções do chefe que juro que se houvesse multas por quantidade de peito exposto esta mulher já estava mais que falida (oferecida!) lá fomos eu e ele, eu muito sentida e ele muito compungido que coitado nem percebeu que a falta de elogio naquele caso transtornou um copo de água cheiinho a abarrotar. Mas que foi querido lá isso foi. Deixou-me lá no banquinho e foi ele mesmo preparar-me e buscar-me o café numa troca de papéis invulgar e muito me apaparicou para compensar… alguns homens realmente são donos dum bom coração. E é pena o deste homem já estar ocupado porque eu, sim eu, ao contrário dalgumas flausinas que por aí andam à solta, não me meto em matrimónio alheio e mais o raio da catrapisca que me roubou o meu Fernando e me deixou assim à beira do desespero! Mas ó senhores, não haverá por aí uma alma caridosa, um gentil homem, que me venha acudir nesta hora de aflição?

Graças a deus!

É verdade, estou muito agradecida a essa Alta Autoridade dos Céus pelo facto de ter amigas tão preocupadas com o meu bem estar e bem parecer. Pois os nossos directores comunicaram-nos que este ano querem-nos ver mais bem vestidas que para maltrapilhas já lhes bastam as filhas adolescentes que tem em casa que eu felizmente ainda nem sei o que isso é que as minhas duas meninas ainda se vestem de igual e tudo como eu quero e escolho mas cheira-me que já não vai durar muito porque a Sarinha de vez em quando lá me aparece com uns buracos nas camisolas das Powerpuff Girls e eu essas tácticas de furar a roupa já as conheço de ginjeira porque eu fazia o mesmo para enervar a minha mãe que gostava de ver as suas meninas todas vestidas de igual.

Como eu ia então dizendo, a Ani que é uma querida hoje veio almoçar comigo e fomos às compras que é para aproveitar os saldos que como eu dizia no outro dia à Ildinha que é a minha colega do lado, é que o dinheiro ainda vai chegando mas não é assim muito e qualquer dia a outra maldita que já anda a buzinar aos ouvidos do meu Fernando ainda o vai chatear para me obrigar a apresentar as despesas todas descriminadas e ai se a fulana me vê que para lá no meio das facturas aparecem contas de lingerie minhas acho que não vai achar muita piada!

Depois de nos carregarmos com coisas que comprei, mais para as miúdas do que para mim que elas não param de crescer que é uma coisa disparatada que alguém havia de proibir as crianças de crescerem tão rápido, fosse em comprimento, fosse em largura! “A culpa é dos hambúrgueres e das pizzas que tu lhes dás!”... lá me ia dizendo a Ani que é uma querida mas que tem esta mania de ser a minha voz da consciência. E no meio de tanto gasto até perdi o apetite e como ela também não gosta de comer ficamo-nos mesmo só pelo café que assim até se poupam uns trocos e umas calorias.

A Ani acha que a Vavi pensa muito em sexo e vai de desabafar comigo que não percebo porque é que as mulheres tem que andar sempre a apontar os defeitos umas das outras. E eu lá lhe ia dizendo que ela sofre muito por estar sozinha que era para eu não dizer a verdade que a Vavi tem um corpinho jeitoso e que nós somos mulheres mas não somos cegas que à Ani faltam-lhe as curvas para atrair os olhares do sexo oposto. Mas claro que não lhe disse nada e limitei-me a acenar com a cabeça enquanto ia dando uma vista de olhos aos estranhos que por ali passavam.

Ai e antes de mais, ó Cajuzinha tu não me fiques com inveja da Vavi, mulher! Olha que eu sempre te disse que deus inventou o homem, depois a Brigitte Bardot e depois tu! Tu bem sabes que eu te considero a deusa da beleza feminina portanto deixa lá a Vavi dar um ar da sua graça que há homens no mundo suficientes para nós todas. Ou pelo menos assim o espero senão desistia já de levar a cabo esta missão de encontrar um Marido! Se bem que voltei do almoço assim um poucochinho desanimada porque dos estranhos que se passeavam pelo centro comercial à hora do almoço só um me devolveu o olhar e depois a Ani ainda me disse que o homem era estrábico e realmente lá o vimos a entrar na Multiópticas e a sair de lá com uns óculos género fundo de garrafa… Ai que isto não está a começar nada bem!

E se de repente…

Um estranho me ligar às 5 da manhã a dizer que me conheceu “doutras andanças” e eu àquela hora a pensar em que andanças andaria eu metida para conhecer um estranho que de repente me diz que está apaixonado por mim… E eu a rir que nem uma perdida e o homem, que era um homem do norte ainda por cima (e o que eu me pelo por homens do norte) foi por ali fora com aquele sotaque fascinante a desfazer-se em elogios, que eu era muito querida, um amor, uma mulher quente e sensual! E eu cá deste lado bem lhe dizia “ó homem olhe que você se enganou no número! Olhe que eu de sensual não tenho nada!” e a achar que o homem ou estava com uns copitos a mais ou estava seguramente enganado mas ele dizia que não, que era mesmo comigo que tinha estado a sonhar!

Claro que assim que ele desligou liguei logo à Vavi a contar-lhe e considerando que eram 5 e meia da manhã ela até foi ligeira nos insultos e depois de muito praguejar lá me disse que das duas uma: ou os níveis de álcool no meu sangue ainda se mantêm elevados depois de tanta bebida que eu alarvemente ingeri, ou então eu estaria certamente a sonhar com um homem de bigode e a bem dizer da verdade nunca tinha pensado nos bigodes como acessórios sensoriais uma vez que o meu Fernando andava sempre tão limpinho que parecia um rapazinho. Com toda a paciência do mundo ela lá me explicou que um Marido não cai assim do céu e muito menos às 5 da manhã duma noite qualquer em que nem sequer estou a fazer por encontrar o homem dos meus sonhos pois enfiada na cama de pijama e enrolada numa manta por baixo do edredon não é uma boa maneira de seduzir e conquistar homem nenhum!

E quanto a você, caro e ilustre desconhecido que animou a minha noite ou os meus sonhos (pois que na realidade tenho que reconhecer que até pode ter sido um sonho), se é que você realmente existe tenha lá a bondade de se acusar senão a Vavi vai achar que eu já estou a alucinar demasiado em relação a esta história de andar à procura dum Marido!