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Eu não nasci para ser pobre!

No sábado à noite resolvemos ir dar uma volta para espairecer que isto uma mulher divorciada em fim de semana sem crianças tem que dar um ar da sua graça para variar um pouco as vistas e tentar-me abstrair do raio do cheiro da lixívia que se me entranhou nas mãos por ter andado a tarde toda a fazer limpezas. Eu e a Caju e a Vavi e a Ani discutimos que nos fartamos até decidirmos onde ir porque há sempre este problema nas saídas só de mulheres onde não há um cavalheiro generoso que se prontifique a pagar-nos os comes e bebes. E como cada uma de nós se tem que remediar com o pouco que ganha, acabamos sempre a noite umas um bocado chateadas com as outras porque todas querem levar a sua avante e depois nenhuma fica satisfeita com o sítio para onde vamos.

Fomos para o casino ouvir música ao vivo e bebericar um chá porque é como diz a Caju que é uma mulher prática assim como eu, por 2 euros e uns trocos ficamos ali toda a noite a ouvir música a e ver quem passa com a vantagem de ouvirmos o tilintar longínquo das moedas a caírem nas máquinas de jogos que quase que dá vontade de pedir a quem passa que nos vá mas é deixando cair as moedas nos nossos bolsos que sempre tinham destinos mais interessantes e úteis do que os cofres do casino. E eu por acaso até tenho um cofre lá em casa daqueles embutidos na parede por trás dum quadro duma menina deitada de costas que eu nunca lhe achei piada nenhuma assim com o rabo ao léu, mas o Fernando dizia que aquilo era arte e além disso nenhum ladrão se atreveria a mexer na menina assim semi nua para ver o que estava pela frente dela, ou seja, por trás do quadro. E nem sei agora para que ficou lá aquela porcaria, cofre vazio e menina sem vergonha a fazer-me lembrar um certo safado desavergonhado que me deixou o cofre às moscas por trás da menina destapada. Ainda se o homem se tivesse lembrado de lá deixar qualquer coisita dentro, mas não, aquilo foi uma limpeza tal a ganância que era de não me deixar nada em casa que eu pudesse usar para comprar comida para os filhos, sim que estas crianças precisam de se alimentar!

E assim estivemos à conversa ao som da Dora e eu nem sabia que a rapariga ainda cantava desde aqueles outros tempos em que esganiçada pedia ao homem que não fosse mau para ela, e olha que apesar de entradota tem cá um corpinho de fazer inveja a muitas raparigas novas e eu bem vi a Vavi a criticar-lhe as rugas à volta dos olhos mas a cobiçar-lhe as pernas musculadas que a Vavi pode ter um corpinho jeitoso mas aquilo treme por todo o lado. Por isso a mulher nem dançar vai, aquela é mesmo de se encostar num bar ou recostar numa cadeira e não mexer um milímetro que é para ninguém ver as carnes a abanar por todo o lado!

Pois eu e a Caju comentámos que não gostamos de ser pobres! Ninguém gosta de ser pobre claro, nem os próprios pobres, mas nós decerto fomos vítimas de alguma conspiração quando nascemos porque estamos claramente abaixo da nossa condição! A Caju que até acredita nessas coisas da reencarnação acha que deve ter havido um problema qualquer no karma cósmico da altura porque os espíritos devem-se elevar cada vez que renascem e os nossos já devem com toda a certeza ter passado por vidas de luxo e grandeza. Eu cá não acredito nada nessas coisas mas realmente era mais fácil achar que ao sorteador de almas lá lhe tinha dado uma coisa má precisamente na altura em que eu, isto é o meu espírito, lhe passava pelas mãos e vai dai espetou com a minha alma naquele corpo roliço e prestes a nascer na Maternidade da Baixa da Banheira em vez doutro corpinho qualquer prestes a nascer num berço de ouro! Assim sendo considero-me injustiçada porque devia ser eu a princesa herdeira dum trono qualquer real e não a dita cuja pencuda e estrábica que está lá no meu lugar! Ai eu em berço de ouro… aí sim poderia regalar-me à minha vontade e mandar fazer tudo o que quero ver feito à minha maneira. Serviçais a torto e a direito, costureiros e sapateiros privados, e em calhando quem sabe até chapeleiros! Comer e beber do bom e do melhor e ter os homens mais ricos do mundo a meus pés. Daqueles que tudo fariam sem olharem a meios (financeiros pois claro) para satisfazerem os meus mais rebuscados caprichos!

Pois se me apetecesse ver o pôr do sol duas vezes no mesmo dia… pois se me apetecesse ir a um jantar de gala no Mónaco com um vestido já usado pela princesa Grace (que digo de passagem que é o meu modelo e referência feminina mas atenção, só depois de ter desistido lá das trapalhadas dos filmes que aquilo foi só para enganar a populaça até conseguir caçar o príncipe dos seus sonhos)… pois se me apetecesse ir até Itália ao la Scala… ou ir jantar ao Ciel de Paris na Tour Montparnasse (e eu juro que quase sei a que cheiram e sabem as trufas apesar de tal iguaria nunca me ter passado pelo estreito…)… ou ir escolher jóias e diamantes ao Tiffany’s ali à Quinta Avenida em Nova Iorque… Sim porque eu posso ser pobre mas não sou burra e sei bem onde se encontram todas as coisas que eu sinto que mereço! Portanto príncipes, condes ou duques ou mesmo patos bravos desde que sejam endinheirados (sim que para falida já basto eu) estejam à vontade para aparecerem e me levarem daqui para lugares onde eu sinto que pertenço!

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Ó jovem Maria, já não te percebo. Transformei-me, neste blog, numa alma oferecida, ofereço-me constatemente e tu nem um diita me reservaste na tua agenda. Vá, sofre agora. Relê o teu último paragrafo e repara no que tens perdido desde que por aqui ando.

Ó ouvidor mas eu quero um homem só para mim... não estou interessada em partilhar! Mesmo que sejas um príncipe encantado eu quero um cujo coração não esteja já ocupado! Se é para pedir o céu mesmo que ele nunca venha até mim... eu peço! Nem que morra à espera dele!

E a menina a meter-se com a minha querida (muito lá de casa)Grace Kelly, que teve o mau gosto de se casar com aquele bigodudo sem estilo só porque era o chefe do maior casino da Europa (ainda se fosse com o James Stewart, desde que não fossem indiscretos à janela, que esse tinha classe). Quanto ao "pilim" o máximo que poderia fazer era convidarte para um pequeno-almoço na Tiffany’s. Xicoração.

Desde que fosse em Nova Iorque e que me tratasses com a devida deferência, sim porque eu sou uma senhora fina, meu caro Carlos pois que até iria tomar o pequeno almoço contigo na Tiffany's não é... ai... eu não nasci para ser pobre, não nasci mesmo!

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