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É sempre quando menos se espera

Esta é uma daquelas coisas que acontecem sempre quando não devem acontecer! Eu que toda a minha vida andei com saltos altos, que mesmo naqueles de agulha ninguém diria que não são uma extensão das minhas pernas firmes e esguias, pois tinha que ser logo hoje, e logo na véspera de ir jantar com o Fanuco, que um dos saltos se me enfiou num daqueles espaços que há entre as pedras dos passeios à portuguesa que juro que o homem que inventou este tipo de calçada não devia ter senhora em casa porque senão quem levava com um salto partido na testa ainda era ele!

O salto partido ainda é o menos porque aqui no bairro há de tudo e a gente remedeia sempre até porque o Sr. Justino já me conhece tão bem que qualquer dia nem me cobra nada… E lá vou alimentando a minha esperança e o ego do velhote desdentado com sorrisos do tamanho do mundo para ver se um dia ele deixa de me cobrar os arranjos da minha extensíssima colecção de sapatos… tudo de boa qualidade claro, que se os saltos se partem a culpa não é do calçado mas da porcaria de pavimentos que temos que há sítios que parecem verdadeiros campos minados!

Mas o problema é que fiquei com um tornozelo do tamanho duma batata e não é daquelas miúdas! Pois que a coisa se me começou a inchar, a ficar esverdeado e finalmente assentou num tom arroxeado que não combina nada com o vestido preto que eu tinha escolhido para levar ao jantar de amanhã! Agora estou coxa e desequilibrada e não é que o Fanuco vá fazer algum reparo porque o rapaz atrapalha-se todo nestas coisas, mas eu é que não queria agora entrar em restaurante nenhum sem que estivesse nas condições mínimas e indispensáveis para ser o centro das atenções e a inveja de todas as mulheres que para mim olhassem… agora serei sim o alvo da sua troça e dos seus olhares jocosos… eu mais o meu tornozelo batata roxa e o meu andar apatetado que cada vez que ponho o pé no chão é como se me estivessem a espetar dois pregos daqueles bem finos e pontiagudos um de cada lado… ai… bem, só me resta ir enfiar o tornozelo no gelo e rezar para que amanhã ainda consiga andar sem ajuda! Já para não falar em tentar enfiar o pé seja em que sapato fino for porque de repente está tão enorme que me parece até o pé duma das irmãs más da Cinderela… ai… ó fada madrinha se existes anda mas é cá deitar um olho aqui à tua afilhada e com um toque da tua varinha magica desfaz-me aqui esta bola negra que se apoderou do meu tornozelo! Bem e caso a fada madrinha hoje não esteja para aqui virada vou mas é esfregar isto com álcool e chegar-lhe uma pomada daquelas poderosas para ver se amanhã a coisa se endireita...

E não é que eu esteja à espera de grande resultado deste tal repasto, mas enfim… nunca se sabe se é já ali ao virar dalguma esquina que de repente damos de caras com o nosso príncipe encantado (pois que não é o Fanuco, por muita pena que eu tenha do rapaz), e não dá jeito nenhum o homem estar a tentar-nos ajudar a subir para o seu corcel e a gente ali a contorcer-se com dores no tornozelo!

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Comments

Maria, hoje é o teu dia de sorte. Bateste à porta certa. És uma grande sortuda. Então não é que eu sou a fada madrinha. Tenho umas mãozinhas santas. Uma massagenzinha e pronto, já está, ficas com os pézinho maravilha... a que horas te dá jeito?

Ai ó homem! Manda-me já o teu contacto que irei a correr ter contigo que este tornozelo está que não posso com ele!!

Enfim... a correr não será bem o caso que estou tão coxa que mal posso andar! Vens tu ter comigo? Senão acho que não consigo regressar a tempo para o meu jantar!

Atendendo ao teu estado, diz que eu vou.

Ouvidor estou à tua espera naquela rua das avenidas que fazem esquina à hora que já sabes! E se tu não vens homem, juro que hás-de ouvir os meus guinchos de dor até aonde a tua audição alcançar!

Sou mesmo lélélé e de bom tempo. Então não é que estive, lá na esquina, até agora à tua espera?

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