Abençoada seja a sua alma
Pois hoje o que me traz aqui é um motivo dos mais infelizes que poderia haver embora na realidade não me sinta assim tão triste e nem consigo explicar porquê que isto às vezes estas desgraças que nos deviam afectar assim mais, pois na realidade até nos aliviam… ai que eu nem devia estar a dizer isto não vá andar por aí alguma alma penada a passear-se nos fios condutores e a brincar com as luzinhas a piscar e depois ler-me isto e ainda me vem para aqui atormentar que eu preciso de sossego e descanso e sobretudo numa altura destas!
Pois nem sei bem como dizê-lo quanto mais escrevê-lo por isso talvez o mais fácil seja mesmo ir assim de chofre e tudo duma vez. O Fernando morreu! Pois foi isso, assim, está escrito e agora podem pensar que estou aqui a atormentar-me por causa do desavergonhado que ainda o é apesar de estar mortinho da silva. E está mesmo que eu própria fui verificar lá aos frigoríficos da morgue porque a outra felisberta felizmente ainda não lhe era nada e portanto eu ainda sirvo para alguma coisa quanto mais não seja para lhe identificar o cadáver. Pois ele estava com um aspecto um bocado estranho, assim meio azulado e inchado, mas enfim, considerando que levou com a morte em cima, até que não me pareceu assim tão mal e a bem dizer a verdade é que até estava com melhor aspecto do que da última vez que o vi assim tal qual como veio ao mundo.
Não se sabe muito bem do que morreu. Estava óptimo num segundo e no seguinte ficou-se por ali mesmo na tasca do tio Joaquim que os homens até pensavam que era alguma brincadeira e depois foram tentar levantá-lo e ele nada. Eu tenho cá para mim que o homem morreu envenenado… e ainda hei-de ir falar lá com o tenente Sousa na esquadra para ele investigar bem o presente e espiolhar mesmo o passado da senhora dona outra porque às tantas ele fez-lhe alguma transferência choruda e ela achou que era suficiente e vai daí e pumba, acabou com a espécie dele! Embora tenho a dizer que o meu Dioguinho é a cara chapada do pai em mais magro e só é pena o miúdo não estar ainda no seu pleno senão pegava nele e fazia-o passar pelo pai para pregar um valente susto a uma reles que lhe roubou a ele a vida e a mim o amor e note-se que eu hoje ainda estou a recuperar desse embate enorme e nem mesmo a morte do desgraçado não está a ser o suficiente para me sentir de certo modo desforrada.
Agora tenho que ir tratar dos pormenores que obviamente que a outra dita cuja se pirou e me deixou com o corpo do homem nas mãos (e isso é mais uma que me leva a desconfiar da culpa dela) que até parece que agora depois de morto toda a gente se esqueceu do que ele me fez e todos me tratam como se eu fosse a viúva extremosa que me devia estar aqui a desfazer em lágrimas quando eu ainda estou a considerar se respeito o luto ou não. E se o fizer, se me vestir de preto por causa deste safado que me deixou com uma mão à frente e outra atrás, é só por respeito aos filhos dele porque se não fossem as crianças, ai se não fossem as crianças, havia de tornar o funeral do Fernando num autêntico festival. Havia de gritar tantos impropérios e até de cuspir e atirar pedras para cima do caixão que era o que me apetecia ter feito a ele enquanto estava vivo e restringi-me sempre para não me rebaixar à condição dele e do atrelado que mo desviou do caminho!
Comments
Ai Maria, se não confiasse em ti e na tua sinceridade ainda pensava que tinhas sido tu a ministrar a sicuta ao desgraçado do Fernando. Era uma espécie de “se não serve para mim também não há-de servir para aquela lambisgóia”.
Mas não. Não consigo imaginar-te nesse papel de vendetta de subúrbio que cerrando as mãos vocifera entre dentes “decoraste-me a fronte com dois belos apêndices e na volta eu alivio-te a alma desses 80 quilos conspurcados por essa delambida”.
E, em boa justiça, também não te estou a ver no papel de donzela dengosa que depois de fazer beicinho decide fazer uma birrinha do género “para aquela cricalha, o meu Fernando? Nem morto!”. (Cricalha?… Cricalha, Maria? Onde arranjaste este termo?).
Por isso acredito, mesmo, que foi aquela sirigaita que depois de ter chupado o teu Fernando até ao tutano, precisava de desamparar a loja para outro cliente e, vai dai, não esteve com meias tintas e foi com aquele resto de estricnina que lhe sobrou da última operação que aviou o desgraçado. Já estás a ver donde vem aquela cor azulada com que o Fernando encarou os frigoríficos da morgue, não?
Mas pronto, Maria, não se fala mais nisso. Agora, rei morto rei posto. Por falar nisso, já tens algum compromisso para hoje à noite?
Posted by: Ouvidor | janeiro 23, 2006 10:01 PM
Ola Maria,
Entao o teu Fernado esticou o pernil!!!
A morte tal como o nascimento representam sempre o inicio de algo...
a morte do teu Fernando talvez signifique k tenhas encontrado um novo caminho...
... existe Amor que morre para conseguir renascer...
... e as vezes acontece...muito raramente...
Tal como... existe Amor que nasce para morrer...
... sem ser vivido...
Tu com as tuas qualidades teras sempre muitos Fernandos...
Fernandos nao faltam...
Atira te a estrada!!! :-p
Posted by: antonio maria | janeiro 24, 2006 12:16 AM
Olha, olha...lá se foi o Fernando!
Vê sempre pelo positivo: também és herdeira dos (parcos ou não) bens que ele deixou!
Pode ser que depois de tudo leiloado dê para fazeres uma viagem à pala dele!
Posted by: Raínha Má | janeiro 24, 2006 12:51 PM